Mostrar mensagens com a etiqueta Metamorfoses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Metamorfoses. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A Alegria E O Canto Da Cigarra....

É um direito adquirido. :) Não um erro nem um defeito.



Cega-Rega


É difícil.  Isto de começar num montouro, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida...
Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável.
Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada.

IMAGEM  DAQUI

Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...
É difícil, mas vai. Desde que haja coragem dentro de nós, tudo se consegue. Até fazer parte do coro universal.

(…)


   -  Muita alegria tem tal bicho!

   - A alegria passa-lhe... É deixar vir o Inverno...
A pressurosa formiga! A coitada! Como se trabalhar fosse um destino!

   - E temo-lo aí, não tarda muito.

Evidentemente. Mas que lhe importava? A escolha estava feita. Que as folhas do calendário, como as das árvores, fossem caindo, e que os ceifeiros lançassem as gadanhas ao trigo maduro, numa condenação de galerianos. Que nas tulhas se acumulassem toneladas de grão. Ao lado dos celeiros atestados, ficaria um celeiro vazio. Um símbolo de inquebrantável confiança.
  - Mas em quê? - Perguntava um pardal suspicaz.
Outro que não compreendia. Outro que só concebia a existência a saltar de migalha em migalha.

  - Chega-lhe, Cega-Rega!

O Poeta!…Louvado seja Deus!  Até que enfim lhe aparecia um irmão!... Um irmão que sabia também que cantar era acreditar na vida e vencer a morte…

A morte que a espreitava já, com os olhos frios do Inverno...




Da página 85 à 89.

(Excerto do conto «Cega-Rega» de Miguel Torga)

------------------------------------------------------------------------------
Liberdade

— Liberdade, que estais no céu…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga

======================================================