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domingo, 9 de outubro de 2022

ALEGRIA EM TEMPOS DE CÓLERA.

 



"GUERRA DA RUA, GUERRA DA ALMA."


     Persigo a voz inimiga que me ditou a ordem de estar triste. Às vezes, dá-me para sentir que a alegria é um delito de alta traição, e que sou culpado do privilégio de continuar vivo e livre.

    Nessa altura, faz-me bem recordar o que disse o cacique Huillca, no Peru, ao discursar diante das ruínas: «Aqui chegaram. Até as pedras partiram. Queriam fazer-nos desaparecer. Mas não conseguiram porque estamos vivos e isso é o principal.»  E penso que Huillca tinha razão. Estarmos vivos: uma pequena vitória. Estarmos vivos, ou seja, capazes de alegria, apesar dos adeuses e dos crimes, para que o desterro seja o testemunho de outro país possível.

    À Pátria, tarefa por fazer, não a vamos erigir com tijolos de merda. Serviríamos para alguma coisa, na hora do regresso, se voltássemos quebrados?

    A alegria requer mais coragem do que a mágoa. À mágoa, ao fim e ao cabo, estamos habituados.


Autor: Eduardo Galeano


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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

AS MARGENS DO RIO DAS NOSSAS VIDAS.

 

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A TERCEIRA MARGEM.

 Guimarães Rosa foi avisado por uma cigana: «Vais morrer quando realizares a tua maior ambição»

   Coisa estranha: com tantos deuses e demónios que este homem tinha dentro de si, era, no entanto, um cavalheiro muito formal. A sua maior ambição consistia em que o nomeassem membro da Academia Brasileira de Letras.

   Quando o designaram, ele inventou desculpas para adiar a sua entrada. Inventou desculpas durante anos: a saúde, o tempo, uma viagem...

   Até ter decidido que já eram horas.

   Realizou-se a cerimónia solene e, no seu discurso, Guimarães Rosa disse: «As pessoas não morrem. Ficam encantadas.»

   Três dias depois, numa tarde de Domingo, ao voltar da missa, a mulher encontrou-o morto.

Texto de Eduardo Galeano, transcrito do seu livro: "Dias e Noites de Amor e de Guerra".

Pág. 167

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João Guimarães Rosa foi um poeta, diplomata, novelista, romancista, contista e médico brasileiro, considerado por muitos o maior escritor brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos. 

[Informação recolhida na Wikipédia]




( Foto minha)

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sábado, 10 de setembro de 2022

CRIANCICES OU FASES DA VIDA DE TODOS NÓS.

 💜 💛 💚 💙


Texto da página 20


O UNIVERSO VISTO PELO BURACO DA FECHADURA (I)


 Valéria pede ao Pai que vire o disco. Explica-lhe que Arroz con leche* vive no outro lado.

   Diego conversa com o seu companheiro interior, que se chama Andrés e é o seu esqueleto.

   Fanny conta que hoje mergulhou com a sua amiga no rio da escola, que é muito fundo, e que lá embaixo era tudo transparente e viam os pés das pessoas grandes, as solas dos sapatos.

   O Cláudio agarra num dedo de Alejandra e diz «empresta-me o dedo» e mergulha-o na caçarola de leite que está ao lume, porque quer saber se não está muito quente.

   Do quarto, a Florência chama-me e pergunta se sou capaz de tocar no nariz com o lábio de baixo.

   Sebastián propõe que fujamos num avião, mas avisa-me de que é preciso ter cuidado com os serámofos e com a hécile.

   Mariana, no terraço, empurra a parede, que é o seu modo de ajudar a Terra a girar.

   Patrício segura um fósforo aceso entre os dedos e sopra a chamazinha que nunca se apagará.

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* Canção tradicional infantil. (N.T.)




Nota da administradora do espaço:
Caros Amigos, visitantes e leitores que me acompanham nesta jornada blogueira. Como podem constatar recuei no número das páginas do livro que ando a ler e pensei partilhar convosco alguns textos, não todo o conteúdo do livro, obviamente. E recuei porquê?
Pois para vos mostrar que este é um livro especial, feito de textos e narrativas escritas pelo seu autor, durante o exílio. Não aquilo que alguns de vós pensasteis quando leram a Adenda que introduzi na primeira publicação acerca desta obra. O que une estes textos aparentemente dispersos, é a vontade do autor: Eduardo Galeano, cristalizar os dias intermináveis e as noites passadas em claro, onde entre a censura e o cadafalso escolheu Amar e Lutar.
Por favor, não deixem de exprimir as vossas opiniões de acordo com os textos que forem sendo apresentados.
Muito Obrigada pelo vosso tempo e atenção. 

 💜 💛 💚 💙

sábado, 3 de setembro de 2022

DOS SONHOS.

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SONHOS (I)


Os corpos, abraçados, vão mudando de posição enquanto dormimos, olhando para aqui, olhando para acolá, a tua cabeça sobre o meu peito, a minha coxa sobre o teu ventre, e ao girarem os corpos vai girando a cama e giram o quarto e o mundo.

 «Não, não», explicas-me, julgando estar acordada. «Já não estamos aí. Mudámo-nos para outro país enquanto dormíamos»


Página 45

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 SONHOS (II)


   Eu contava-te histórias de quando era pequeno e tu vía-las acontecer na janela.

   Vias-me em miúdo a andar pelos campos e vias os cavalos e a luz e tudo se movia suavemente.

   Então apanhavas uma pedrinha verde e brilhante do peitoril da janela e apertava-la no punho. A partir desse momento eras tu quem brincava e corria na janela da minha memória e atravessavas, galopando, os prados da minha infância e do teu sonho, com o meu vento na tua cara.


Página 217


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 SONHOS (III)


Acordaste, agitada, a meio da noite:

   - Tive um sonho horrível. Conto-o amanhã, quando estivermos vivos. Quero que já seja amanhã. Porque não fazes do agora amanhã? Como gostaria que já fosse amanhã.



Página 261


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Breve nota da autora do blog: Como se pode constatar pela numeração de páginas destes textos poéticos, não há uma sequência nem coordenação de temas, apesar do autor do livro - "DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA" lhes atribuir o mesmo título.  Assim são feitas as nossas memórias. Voam, leves e soltas, ao sabor dos ventos que habitam na nossa alma. 




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terça-feira, 30 de agosto de 2022

MARIA PADILHA.

 💙 💛 💚 💜 💙 💚 💛 💜


Livro que ando a ler e irei partilhando algumas passagens
com os meus estimados leitores.


INTRODUÇÃO À TEOLOGIA (I)


    Naqueles dias descobri Maria Padilha.

Ela nascera nas favelas do Rio e, em poucos anos, invadiu os bairros pobres do norte da cidade.

   Tinha o tamanho de uma mulher.

   Vestia meias de seda e uma saia muito curta, com uma racha que lhe mostrava a liga e lhe despia as coxas, e uma blusa justa, meio aberta, por onde lhe saltava o peito. Estava coberta de pulseiras e de colares que os fiéis lhe ofereciam. E entre os dedos de longas unhas vermelhas segurava um cigarro americano com filtro. 

   A figura de cera de Maria Padilha guardava as portas das lojas de umbanda. Mas onde ela realmente vivia era nos corpos das suas sacerdotisas dos terreiros. Maria Padilha entrava nessas mulheres e, a partir delas, ria-se às gargalhadas, bebia, fumava, respondia às consultas, dava conselhos, desfazia maus-olhados e até era capaz de seduzir o Diabo para conseguir que ele ajudasse quem estivesse a precisar.

   Maria Padilha, deusa maldita, puta divinizada, encarnava nas mulheres que eram, na vida real, putas profissionais. Elas encarnavam-se a si próprias, de certa forma, mas ao contrário. Cada cerimónia era um ritual de dignidade.

   Achavam que eu era uma cabra? Sou uma Deusa!

                              💙 💚 💛 💜

[Texto transcrito do livro "DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA" da autoria de Eduardo Galeano.]
Tradução de Helena Pitta.
Página 58

ADENDA: Obra nascida da repressão no Uruguai, escrita durante o exílio do autor "Dias e Noites de Amor e de Guerra" é um poderoso testemunho do quotidiano em tempos de fascismo, da máquina do medo que silencia os povos e da coragem de quem recusa calar-se. Os Contos e as crónicas de Eduardo Galeano são o espelho da sua própria vida: belos mas assombrosos, heterogéneos mas nunca dispersos. Celebração da vitalidade e perseverança de um Continente inteiro, em linhas de uma invulgar sensibilidade histórica e mestria expressiva, esta obra resgata do esquecimento, companheiros, amantes e desconhecidos, os mortos e os vivos, pessoas de todas as matizes que sofreram a diáspora, penúria e repressão dos «anos de chumbo» da América Latina.



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