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terça-feira, 29 de outubro de 2019

RECOLHIMENTO.


Tela de Alexander Sulimov


Sê sábia, ó minha Dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a Tarde; eis que ela vem descendo:
Sobre a cidade um véu de sombras se projecta,
A alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo

Enquanto dos mortais a multidão abjecta,
Sob o flagelo do Prazer, algoz horrendo,
Remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
Dá-me, ó Dor, tua mão; vem por aqui, correndo

Deles. Vem ver curvarem-se os Anos passados
Nas varandas do céu, em trajes antiquados;
Surgir das águas a Saudade sorridente;

O Sol que numa arcada agoniza e se aninha,
E, qual longo sudário a arrastar-se no Oriente,
Ouve, querida, a doce Noite que caminha.





[  Soneto de Charles Baudelaire ‘in’  "As Flores do Mal " 






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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

DOS DEUSES E DOS BICHOS.





E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.

As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.

Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.


E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

[Beijo a Beijo - Poema de Rosa Lobato Faria]

 

[ A tela é do pintor Toulouse- Lautrec ]




A fotografia é minha. :)


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sábado, 23 de março de 2019

NU CONTRA O NU.

Tela de Almada Negreiros - A Sesta


Tu e Eu Meu Amor
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu. 


Nua a mão que segura 
outra mão que lhe é dada 
nua a suave ternura 
na face apaixonada 
nua a estrela mais pura 
nos olhos da amada 
nua a ânsia insegura 
de uma boca beijada. 

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu. 


Nu o riso e o prazer 
como é nua a sentida 
lágrima de não ver 
na face dolorida 
nu o corpo do ser 
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida. 


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu. 



Nua, nua a verdade 
tão forte no criar 
adulta humanidade 
nu o querer e o lutar 
dia a dia pelo que há-de 
os homens libertar 
amor que a eternidade 
é ser livre e amar. 

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu. 



[Poema de Manuel da Fonseca]


                                                                              
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sábado, 2 de março de 2019

Da Loucura.


Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso



Ser doido-alegre, que maior ventura! 
Morrer vivendo para além da verdade. 
É tão feliz quem goza tal loucura 
Que nem na morte crê, que felicidade! 

Encara, rindo, a vida que o tortura 
Sem ver na esmola, a falsa caridade 
Que bem no fundo é só vaidade pura 
Se acaso houver pureza na vaidade. 

Já que não tenho, tal como preciso
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 

Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo. 



António Aleixo
(Vila Real de Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de Novembro de 1949)





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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

ORGIAS...

...DE CORES - sem importar mês nem dia.



O Beijo - A obra mais famosa do pintor austríaco: Gustav Klimt


Soneto

Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto, 
Setembro, Outubro, Maio, Abril, Janeiro ou Março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto, 
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranquilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de Agosto,
Setembro, Outubro, Abril, Maio, Janeiro, ou Março.

Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?

Ou Sábado sem luz, Domingo sem conforto, 
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira, 
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?


Alphonsus de Guimaraens, poeta brasileiro.
Pseudónimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães.
 (24 de Julho de 1870 – 15 de Julho de 1921)
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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TUDO TEM EXPLICAÇÃO...

...até a minha incultura!




PINTURA DE:   FEDERICO MALDARELLI


Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono

Pego no sono…


(Poeminha do Grande:  Millôr Fernandes )


VOTOS DE FELIZ FIM-DE-SEMANA.

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sábado, 19 de novembro de 2016

O QUE NINGUÉM VÊ.

Tela de Alexander Sulimov -  Fonte  -



Nomeei-te rainha. 
Há maiores do que tu, maiores. 
Há mais puras do que tu, mais puras. 
Há mais belas do que tu, há mais belas.
 

Mas tu és a rainha.


 
Quando andas pelas ruas 

ninguém te reconhece. 

Ninguém vê a tua coroa de cristal,

ninguém olha a passadeira de ouro vermelho 

que pisas quando passas, 

a passadeira que não existe.



E quando surges 
todos os rios se ouvem 
no meu corpo, 
sinos fazem estremecer o céu, 
enche-se o mundo com um hino. 



Só tu e eu, 

      só tu e eu, meu amor, 

                          o ouvimos. 





(Pablo Neruda)










domingo, 6 de novembro de 2016

INTENÇÕES DOMINICAIS.

A Sunday Afternnon....Tela de Georges-Pierre Seurat.


Quando chega domingo,
faço tenção de fazer todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.




Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...


E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...


(…)


***   ***   ***   ***   ***  


Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!


Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940







A TODOS DESEJO UM FELIZ DOMINGO!

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domingo, 12 de junho de 2016

EXORCIZAR MEDOS E SEGREDOS.

Tela de Dima Dmitriev


Diz-se que para que um segredo
não nos devore é preciso dizê-lo
em voz alta no Sol
de um terraço ou de um pátio.
Essa é a missão do Poeta:
Trazer para a luz
e para o exterior o medo.


Sophia de Mello Breyner Andresen