sábado, 8 de fevereiro de 2014

SONHO DE ARTISTA.


António era um pequenino doente que estava sempre deitado na sua cama, ou sentado, de olhos tristes, na sua cadeirinha verde.
Sabia que no mundo existiam muitas outras crianças que podiam brincar, correr pelos campos, jogar o eixo, saltar a corda; e quando lhe diziam que um desses meninos se aborrecia de estudar as lições ou chorava por qualquer insignificância, dizia, sorrindo, em voz baixa:
— Se eu pudesse andar livremente, correr e saltar como eles, estaria sempre feliz!
E a pobre mãe apoquentava-se por ver aquela pálida carita consumida e aqueles olhos expressivos sempre molhados de lágrimas.
E todos os dias pensava num divertimento, num brinquedo que ajudasse a passar as horas amargas ao seu adorado filho. Certa manhã, ocorreu-lhe comprar uma caixa de tintas.
António recebeu o presente com alegria e em seguida pôs-se a pintar.
Depois voltou-se para a mãe e disse:
— Gostava de pintar as pétalas de uma flor!
— Não é possível, meu filho, as flores têm já as suas cores naturais.
— Mas eu quero pintar uma flor!




E tanto pediu, tanto insistiu, que a mãe foi ao jardim e perguntou timidamente, se haveria alguma flor que quisesse renunciar à sua cor, mudar de tonalidade ou de expressão e compadecer-se do seu pequeno doente.
As rosas nem responderam, na sua altivez serena, tão absurda lhes pareceu aquela doida proposta.
Os lírios, erguidos na sua elegância frágil, declararam que a sua pureza tinha de ser intangível.
E as glicínias, e os cravos, e as tulipas, disseram, diplomaticamente que não era possível imitar o tom caprichoso e belo das suas variadas corolas.
A pobre mãe, ia voltar a casa, desiludida e mais triste, quando ouviu uma voz débil dizer-lhe quase em surdina:
— As minhas flores
não são belas mas, se o teu filho se contenta, leva-as contigo, não hesites…
A planta que assim falava tinha grandes folhas verdes e pequeninas floritas de um branco doentio amarelado…
A mãe colheu então um ramo dessas flores e levou-as ao seu filho. Imediatamente, começou a colorir as suas petalazinhas. Era na verdade, um artista.
As tonalidades mais finas mais delicadas e subtis, um cor-de-rosa esmaecido, um azul diáfano, suave, um amarelo vibrante, e muitos outros tons de novidade que nenhuma flor possuía, ele os dava, com singular simplicidade.
Quando acabou, chamou a mãe para lhe pedir que levasse de novo as flores ao jardim
A mãe obedeceu.
Na manhã seguinte, acordou e disse:
— Minha mãe, quero ver se o orvalho da noite manchou aquelas florinhas.
O sol faiscava nos arvoredos e nas plantas. Apenas chegou encheu-se de contentamento, os largos molhos de hortênsias estavam cobertos de formosíssimos tons rosados, roxos, vermelhos, amarelos e azuis.
E por entre aqueles ramalhetes cintilantes de vida, António passou alguns momentos de felicidade, porque só ele instintivamente criara essa beleza renovada, eterna e frágil, discreta e decorativa.

António Botto in O Livro das Crianças
Imagens da Net

38 comentários:

  1. Que lindas flores e conto!Adorei! bjs, tudo de bom,chica

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Chica!

      Para ilustrar um conto tão delicado e belo, teria de encontrar flores a condizer!
      Um beijinho e obrigada pela presença amiga, Chica.

      Eliminar
  2. Amiga Janita:
    António Botto neste conto revela uma grande sensibilidade, talvez porque a sua vida pessoal não tenha sido fácil.
    Afinal é tão fácil embelezar o mundo não é verdade?

    beijinho


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Amiga Fê.

      António Botto era um homem muito sensível. Até a sua poesia erótica tem laivos de melancolia.
      Para embelezar o mundo e alegrar uma criança, basta dar amor e mais amor! :)
      Ter amor para dar é o segredo da felicidade.
      Beijinho.

      Eliminar
  3. António Botto era dotado de uma grande sensibilidade!
    Não conhecia este conto...
    Obrigada!

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Rosa!

      Este conto, tão amoroso e singelo, é a prova da sua imensa sensibilidade!

      Um grande abraço, Rosinha.

      Eliminar
  4. A sensibilidade de António Botto num conto que não conhecia, mas que gostei muito.

    Bom domingo Janita

    beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, For!

      Havendo crianças, flores, e sonhos; já sei que gostas, amiga!

      Boa semana querida Adélia!:)

      Eliminar
  5. Quando vir hortenses, lembrar-me-ei de quem as pintou...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Rogério!

      Nos Açores, há as hortenses mais belas do planeta. Veja onde chegou a criatividade do 'nosso' ´pequeno/grande António:)

      Um beijinho.

      Eliminar
  6. Respostas
    1. Obrigada, Mar!

      Essas duas palavras tiveram, em mim, o efeito de um belo discurso!

      Um beijinho.

      Eliminar
  7. Olá, Janita!

    Sobre uma realidade bem triste, foi construída uma história linda, com um final feliz, libertador - que no final nos deixa com um sorriso no rosto.Uma delícia.

    E as hortênsias fazem-me voltar aos Açores, que eu acho um sítio lindo.

    Beijinhos amigos e boa semana.
    Vitor

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Vitor!

      Sempre muito gratificante ler as tuas enternecedoras palavras. Também considero o final do conto uma delícia.
      Nunca estive nos Açores, mas gostaria muito de não morrer sem lá ir. Em qualquer das ilhas há hortênsias das mais variadas cores.
      Já publiquei um poema de Vitorino Nemésio e ilustrei-o com uma vereda ladeada destas flores maravilhosas.
      Também as tenho, mas não são tão lindas.

      Beijinhos muito amigos, Vitor e votos de boa semana.

      Eliminar
  8. Olá Janita,

    Um belo conto, o sonho importa.

    Abraço grande e obrigado pela partilha

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vim deixar um abraço de boa noite, "ouvi" dizer que estava uma ventania para os teus lados...

      Outro abraço

      Eliminar
    2. Olá, Argos!

      Acho belíssimo o conto!
      Mas eu sou suspeita por três razões....adoro crianças, admiro a beleza das hortênsias e nutro um carinho especial por António Botto!!
      Quando ontem vieste dar-me o abraço de boa noite, quem te 'disse' que por estes lados estava uma ventania ciclónica, estava bem informado! :))
      Felizmente, hoje já melhorou bastante, mas o frio continua!

      Beijinhos e abraços!

      Eliminar
  9. Janita, na verdade, a sensibilidade de António Botto deixa-me sempre de cara à banda... deixo dois excertos de um poema dele:
    " Eu hontem passei o dia
    Ouvindo o que o mar dizia.
    -----
    E os poetas a cantar
    São echos da voz do mar! "

    Deixo um beijo e um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, António.

      Sei que, tal como eu, aprecia a obra de António Botto. Já me o havia dito e fico feliz por isso.

      Quando um poeta canta, transmite-nos os ecos da voz do mar, que só eles ouvem e sabem entender. É como se puséssemos um búzio colado ao ouvido...

      Mando-lhe um abraço e um beijo.

      Eliminar
  10. Quando a imaginação e a sensibilidade se juntam ficando "às ordens" de um poeta com uma mente brilhante, só podem surgir coisas boas, lindas, tal como as flores são quer nos campos, quer nos jardins.
    António Botto, tal como tantos outros, ficam sempre nas prateleiras superiores longe dos acessos mais fáceis destinados a pessoas como por exemplo Pessoa.
    Achas que deveríamos dizer isto ao Sr.Crato? Que a Literatura deveria ser uma disciplina obrigatória e complementar de Português?

    Beijoka com um enorme sorriso cheio de cor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sensibilidade e imaginação, são dois 'ingredientes' indispensáveis para cozinhar uma linda poesia ou uma bela prosa, Kok! :)

      Devíamos sugerir isso ao Sr. Ministro da Educação e, na minha opinião, ele até concordaria. A Literatura devia ser mesmo obrigatória na disciplina de Português Quem sabe os nossos jovens, ganhassem gosto pela leitura e melhorassem a ortografia. .
      Alguns escrevem com erros de palmatória.:))

      Bejokas e sorrisos com as cores do arco-íris!

      Eliminar
  11. Foi uma excelente opção homenagear um autor tão profícuo e que, infelizmente, só é recordado pela sua obra mais irreverente.
    Ainda hoje não estaria totalmente livre da discriminação, que o conduziu a um fim de vida tão lamentável.
    Um conto amoroso, de tocante e inexcedível generosidade, escrito em belíssima criatividade poética.
    Uma boa semana, se possível, agradável.

    ~ ~ ~ Um grande abraço. ~ ~ ~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu acho que António Botto tem sido injustamente discriminado na ´nossa História Literária. Grande parte da sua obra foi dedicada à poesia erótica, mas os motivos principais foram outros.

      Fico feliz com as lindas palavras com que demonstras o teu apreço por este seu emocionante conto. Obrigada!

      Beijinhos, Majo!

      Eliminar
  12. Janita: lindo conto nunca tinha lido apesar de conhecer o autor.
    Boa semana.
    Beijos
    Santa Cruz

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, amigo Santa Cruz!

      Ainda bem que tive a oportunidade de te dar a conhecer um conto que desconhecias. As coisas simples são as mais belas, e este relato é de uma ternura e simplicidade que nos comove.

      Bia semana e um beijo amigo.

      Obrigada Santa Cruz!

      Eliminar
  13. Não conhecia o conto infantil, mas é daqueles que possivelmente a minha professora primária nos leria da revista "Fagulha", às 4ªas feiras, que era dia de histórias e lavores... :)

    A foto das hortênsias está lindíssima, mesmo que as tonalidades ajudem bastante ao sucesso da foto!

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sabes que não considero , este, um conto infantil, Teté?
      Fala de uma criança como poderia falar de um adolescente ou adulto que vivesse preso num sonho, aparentemente, impossível , mas que se tornou realidade.
      Quantas vezes sonhamos com algo que nos parece inatingível e nas voltas que a vida dá, se acaba por concretizar?
      Talvez uma criança não lhe consiga captar o verdadeiro significado.
      Aqui não há fadas nem duendes! Apenas o sonho de uma alma sensível

      Uma grande beijoca!:)).

      Eliminar
  14. Passe lá no blogue que tem lá uma surpresa, Janita :))
    Beijinhos e votos de boa semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :)) Já passei, Amigo Pedro! E que surpresa! :))

      Obrigada!
      Houve quem levasse aquilo a sério! eheh

      Beijinhos e óptima semana!

      Eliminar
  15. Boa tarde,
    Adoro contos e admiro a criatividade de quem os escreve.
    O conto que apresenta é belíssimo.
    Abraço
    ag

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, António.

      Também sinto uma enorme admiração pela criatividade e imaginação de quem tem capacidade para inventar histórias tão belas
      .
      O António também é uma pessoa muito dotada para a poesia fotográfica!
      :)
      Um abraço!

      Eliminar
  16. Escrita intensa deste autor. Fizeste bem em trazê-lo para o teu estaminé.

    Beijos do... par :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tento fazer com que o meu estaminé seja o mais eclético possível!:)

      Aqui vais encontrar um pouco de tudo, uma vez que publico aquilo que me agrada e dá na gana, ou melhor, é mais conforme o meu estado de espírito!

      Beijinhos ao.....par!!:))

      Eliminar
  17. Gostei muito de ler este conto que nao conhecia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E eu fiquei feliz por teres gostado., Catarina!

      Obrigada!

      Um abraço :)

      Eliminar
  18. Adoro contos…este é ternurento.
    Também adoro crianças (apesar de não ter tido), aprecio imenso plantas e flores.

    Um poema do autor:

    O brinco da tua orelha
    Sempre se vai meneando;
    Gostava de dar um beijo
    Onde o teu brinco o vai dando.
    Tem um topázio dourado
    Esse brinco de platina;
    Um rubi muito encarnado,
    E uma outra pedra fina.
    O que eu sofro quando o vejo
    Sempre airoso meneando!
    Dava tudo por um beijo
    Onde o teu brinco os vai dando.

    António Botto.

    Beijinho com carinho
    Susana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Adoro contos, adoro poemas...e este que me deixaste é maravilhoso, Susana! Bem ao jeito de António Botto, como diria um meu amigo recente!:)
      Vou guardá-lo junto de outras belezas poéticas que me têm oferecido ao longo deste tempo que ando a navegar e a criar amizades na blogosfera.
      Obrigada, Susana.

      Beijinhos com ternura.

      Janita

      Eliminar
  19. António Botto é para mim um dos maiores poetas portugueses e o seu livro "Canções" um dos melhores livros de sempre.
    Mas a maior parte das pessoas desconhece esse outro livro de Botto, que é "Os Contos de António Botto", com pequenos contos infantis. É uma delícia; tenho-o há dezenas de anos e está gasto de tanto uso.

    ResponderEliminar