terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Partilhando Leituras # 3

     É véspera de Ano Novo, mas a Emma está com uma das suas dores nas costas e não lhe apetece festejar. Retirou-se para os seus aposentos reais, e está estendida na tábua que lhe serve de cama. O nosso esquema de coabitação seria um quebra-cabeças para quem julgasse vir encontrar um ninho de amor convencional. Há o seu lado da casa e há o meu, exactamente como combinámos no dia em que ela veio viver comigo: cada um teria a sua soberania, o seu território, o seu direito à solidão.
     E hoje, porque é véspera de Ano Novo, a primeira que passamos juntos, tenho licença para me estender no chão ao lado dela, de mãos dadas, enquanto falamos para o tecto e a aparelhagem dela toca em estéreo música de alaúde e o resto da Inglaterra se diverte à grande.
  – Ele de facto é o fim – queixa-se ela (com um certo humor, lá isso é verdade, mas não o suficiente para esconder o seu desapontamento), – Quero dizer até mesmo o Larry sabe quando é o Natal. Podia ao menos ter telefonado.
     E eu explico-lhe, e já não é a primeira vez, que o Natal é para ele uma coisa abominável; que todos os Natais, desde que o conheço, ameaça converter-se ao islamismo; e que todos os Natais parte numa viagem qualquer, danado, só para escapar ao horror das celebrações inglesas subcristãs. Mas fico com a sensação de que ela mal me ouve.
  – Seja como for, hoje em dia não há sítio no mundo de onde não se possa telefonar – diz ela severamente.
      A verdade é que o Larry já se tornou no nosso orago, no nosso génio errante. Já quase nada acontece nas nossas vidas sem que lhe façamos a devida vénia. Até a nossa última colheita, apesar de só estar bebível daqui a um ano, é conhecida cá em casa por Château Larry.
  – Nós telefonamos-lhe imensas vezes – queixa-se ela. – Francamente, ao menos podia mandar dizer que está bem.
    Na verdade, quem telefona é ela, embora referi-lo fosse uma ofensa à sua soberania.  Telefona para saber se chegou bem a casa; para lhe perguntar se não há problema em comprar uvas da África do Sul actualmente; para lhe lembrar que prometeu ir jantar com o deão, ou aparecer correctamente vestido e sóbrio na reunião de professores.
  – Talvez ele tenha arranjado alguma namorada  –  sugiro, muito mais esperançado do que ela pode imaginar.
   – Então porque não nos diz? Ele que a traga, se tiver de ser…a cabra. Sim, nós não vamos ser contra, não é?
   – Muito pelo contrário.
   – Detesto pensar que ele está sozinho.
   – No Natal.
   – Em qualquer altura. Quando ele sai a porta, fico sempre com a impressão de que não volta mais. Não sei…parece que alguma coisa o ameaça…
   – Acho que és capaz de descobrir que ele é ligeiramente menos delicado do que supões  – digo eu, também para o tecto.
     Tenho reparado ultimamente que conversamos melhor sem contacto visual.
 Talvez a única maneira possível de comunicarmos.
    – Atingiu o topo cedo de mais, é esse o problema do Larry. Brilhante na Universidade, um falhanço na vida real. Houve dois ou três assim na minha geração. Mas esses são os resistentes, vencedores é a palavra mais adequada.
    Chamem-lhe disfarce, chamem-lhe qualquer coisa pior; nas últimas semanas não tenho feito mais nada senão ver-me a fazer o papel do Bom Samaritano sofredor enquanto bem no fundo sou o pior Samaritano do mundo.
    Mas Deus hoje fartou-se de aguentar esta minha duplicidade. Mal tinha acabado de falar quando oiço, não o cantar do galo, mas umas batidas na janela do rés-do-chão. E tão distintas  – tão ao ritmo da sua música de alaúde – que por um segundo penso se não será uma torneira a pingar na minha imaginação, até que a mão da Emma se liberta da minha num repelão, como se eu a tivesse picado, e ela rebola para o outro lado e se levanta. E, tal como o Larry, não grita, fala. Com ele. Como se fosse o Larry, e não eu, que estava ali deitado ao lado dela.
   – Larry? És tu? Larry?  
    E, a seguir ao tamborilar, oiço por baixo de nós aquela voz grave e aveludada que desafia a gravidade e paredes de pedra de um metro de espessura e consegue dar connosco onde quer que nos tivéssemos escondido. Está claro que não a ouviu. Não pode ter ouvido. Não pode de maneira nenhuma saber onde estamos ou até se estamos em casa. É verdade que estão duas luzes acesas ao fundo das escadas, mas eu faço sempre isso para afastar os ladrões. E o meu Sunbeam está fechado na garagem, longe da vista.
   – Hei, Timbo. Emm. Meus queridos. Baixem a ponte levadiça. Cheguei. Lembram-se do Larry Pettifer, o grande educador? Pettifer, o Petomane? Feliz Ano Novo e blá-blá-blá.
    Emm é como ele lhe chama. E ela não se importa. Pelo contrário, começo a desconfiar que ela o usa como troféu.


(Continua)







20 comentários:

  1. Boa!
    Gosto de ler antes de dormir, obrigado!

    Abraço grande

    abraco grande

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    1. :) Ler antes de adormecer favorece o sono, Ricardo!

      Fazes bem.

      Beijinho

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  2. Já no outro dia tinha ido espreitar de quem seriam estas personagens. "O nosso jogo" de John Le Carré. Nunca li, mas parece bem interessante... :)

    Beijocas

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    1. O Ricardo também já havia identificado o livro, Teté, mas sabia que tu também o farias. :)
      Na impossibilidade de transcrever o livro, integralmente, estou a seleccionar as passagens principais. Creio que dará para ficarem com uma ideia da densidade da trama! :)

      Beijocas, Teté. Obrigada

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  3. Muito giro, fico entusiasmada!
    bjs

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  4. No fim acabou tudo bem. Ainda não sei se foram sempre felizes, mas sei que se aceitaram.

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    1. Pois, Luis Coelho...
      Os romances, tal como a vida, por vezes confundem um bocado à primeira vista! :)

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  5. "Tenho reparado ultimamente que conversamos melhor sem contacto visual.
    Talvez a única maneira possível de comunicarmos."

    pelo menos esta parte
    parece neo-realismo

    :))

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    1. Parece, não parece, Rogério? Assemelha-se...

      Mas, nem tudo o que parece é!! :))

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  6. Gostei! Parece ser interessante.
    Aquela parte em que estendidos no chão de mãos dadas, falavam para o tecto e ouviam a aparelhagem, fez-me recuar no tempo.

    Um beijinho Janita

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    1. Minha querida, amiga, nem imaginas como fiquei contente.
      Essa parte a mim não me disse muito, mas sabes que eu sou um caso à parte! :(

      Um grande beijinho amigo, Adélia.

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  7. tenho que reler o livro para poder acompanhar...

    beijo

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    1. Ou, através da leitura aqui, possa relembrar as passagens esquecidas, do livro que já leu, Manuel.

      O leitor decide...:)

      Beijinhos

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  8. Gosto do autor, não conheço o livro.
    Beijinhos

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    1. John Le Carré é um escritor sobejamente conhecido, Pedro. Contudo, este é o segundo livro que leio dele, apenas.

      Gostaria de deixar uma ideia o mais compreensível possível, deste romance, para quem ainda o não leu ou para quem gostar de relembrar. Vamos ver se consigo!

      Beijinhos.

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  9. Gosto da leitura e do estilo de JOHN LE CARRÉ. Fazes-me recordar outros tempos.

    Beijo
    SOL

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    1. Este, "O Nosso Jogo", é um romance muito interessante, SOL.
      Não sei é se conseguirei fazer chegar até vós - amigos mais pacientes - todo o interesse que ele me despertou. :)

      Beijos e bem-hajas pela visita!

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