domingo, 17 de fevereiro de 2013

POR VEZES...

   

 
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
 
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
 
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.
 
                  David Mourão-Ferreira
 

 
                                                                                      

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

APEGO EM EXCESSO É UM ERRO.


 
A Máscara do Esquecimento e do Equívoco
 
Sob a máscara do esquecimento e do equívoco, invocando como justificação a ausência de más intenções, os homens expressam sentimentos e paixões cuja realidade seria bem melhor, tanto para eles próprios como para os outros, que confessassem a partir do momento em que não estão à altura de os dominar.
Sigmund Freud

Deve ser por esse motivo que dizem de boas intenções estar o Inferno cheio! Será?



 
Não é fácil desapegarmo-nos  das pessoas nas quais acreditamos, nem das coisas que pensávamos serem importantes na nossa vida. Mas, fica mais  fácil quando algo,de súbito, nos faz entender que, inexplicavelmente endeusamos pessoas que afinal não passam de  seres humanos  como outros quaisquer, óbvia e naturalmente.   Seres sujeitos a cometer erros para nós impensáveis e que afinal, nada possuíam de qualidades extraordinárias.
 Os Deuses não enlouquecem...simplesmente, não existem! :)
Equívocos a que todos estamos sujeitos, inclusivé aqueles que se consideravam experientes e avisados. Nem sequer é uma questão de boa ou má fé.  É aqui, que o desapego se torna imprescindível. Vem isto a propósito deste poema de Fernando Pessoa. 
 
A todos desejo um excelente fim-de-semana.
                                                                                    

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

É Dessas Que eu Sou...!


Pastoral

 
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.


Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

bainha nem todas.

Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas
redondas, agudas.
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
 
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
 
mesmo semelhantes,
são sempre diferentes.

 
Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
 
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam
apenas volitam
nas dobras do vento.
 
É dessas que eu sou!
 
Poema de António Gedeão
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

É CARNAVAL?...SEI LÁ!...




"Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza, você não merece o meu melhor!"

Como no Carnaval nada se leva a mal, vou pela primeira vez
 lançar-lhes um repto. Quem terá dito o que está escrito acima?
 Não é difícil...:)

 

É Carnaval, e Estão as Ruas Cheias

 
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
 
Esta gente é igual, eu sou diverso
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso
E o que digo, eles nunca assim diriam.
 

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
 

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
 

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
 
 
 
Álvaro de Campos

Para quem quiser sentir um cheirinho mais do Carnaval 2013, veja AQUI

 Para tudo se acabar na quarta-feira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

PESCA E PESCADO....UM PRAZER SAGRADO.

Imagem DAQUI





 
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não!
A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como: “este foi difícil
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Autora: Adélia Prado.



Agora, é só preparar o grelhador!

Bom apetite e um bom fim de semana para todos.:)


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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Silêncio, Sombra, Saudade...e Sol.








As Palavras
 


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

 
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.

 
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Este é o poema mais simples e mais belo de
 Eugénio de Andrade.  
É também, aquele de que mais gosto.
Esta deve ser a terceira vez que o publico.
Quando gosto a valer de qualquer coisa, chego a ser enjoativa.
Mas tenho a noção dos meus limites!  


 
 
Não creio que haja alguém que ainda não tenha visto e ouvido este maravilhoso duo cantar  esta belíssima canção, que adoro:
 Perdóname.
 Gosto tanto, que aqui  deixo o vídeo, mas desta feita, sem qualquer noção de limites.
Deixo um beijinho para todos(as) quiçá como uma espécie de desculpa e forma de compensação pela falta de originalidade do post!
 
 
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

É PRECISO AGUENTAR? É, SIM!

 
 
É em virtude de  Crónicas como esta, que cada vez admiro mais Miguel Esteves Cardoso.
Se aqui há uns anos atrás me dissessem que eu iria escrever isto, no mínimo, eu diria :
"Só se eu tiver enlouquecido"  Entretanto, não enlouqueci. E gosto, mesmo!
 

"Como é que se Esquece Alguém que se Ama?"

Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar.
 
 Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo.
 
Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.
Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
 
 

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A CULTURA DA APARÊNCIA..

No século vinte e um, se ainda estamos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, seremos gente do milénio passado.
Ainda não podemos adivinhar o tempo que será, sim que temos, ao menos, o direito de imaginar o que queremos que seja.

As Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que o direito de ver, ouvir e calar.
Que tal se começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se deliramos por um tempinho? Ao fim do milénio, vamos fixar os olhos mais além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:

O ar estará limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das humanas paixões. As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pelo televisor.

O televisor deixará de deixar de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver, em lugar de viver para trabalhar.

Se incorporará aos códigos penais o delito de estupidez, que cometem os que vivem para ter ou para ganhar, em vez de viver por viver e só.

Como canta o pássaro, sem saber que canta, e como brinca a criança,
sem saber que brinca.

Em nenhum país irão presos os rapazes que se neguem a cumprir o serviço militar, mas os que queiram cumpri-lo.
Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo; nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não mais acreditarão que as lagostas adoram que as fervam vivas.

                               
                        
                                                                  
 
Os historiadores não acreditarão mais que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza.
E a indústria militar não terá mais remédio que declarar-se falida.
A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio.
Porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratados como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.

A educação não será o privilégio dos que possam pagá-la, e a polícia não será a maldição de quem não pode comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem 
grudadinhas, costa contra costa.
Na Argentina, as loucas da praça de maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negarão a esquecer os tempos da amnésia obrigatória.
A perfeição, a perfeição continuará sendo o aborrecido privilégio dos deuses.

Mas neste mundo, neste mundo desajeitado e fodido, cada noite será vivida como se fosse a última, e cada dia como se fosse o primeiro!
 
Texto de Eduardo Galeano, in "O Direito ao Delírio"
Há verdades e vontades que serão sempre actuais, quer se goste ou não de as ouvir!
Esta é a minha opinião! A vossa será igual, ou não?..
 
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