A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos
quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a
deixá-los subir e descer na balança.
O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em
peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde,
tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos
suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo
rebordo andamos.
Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos
pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez
que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por
cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz
metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes
actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe
disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.
Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é
feito para o futuro e o do outro é rabiscado para sobrevivências. Filipão
pisava ou era pisado pelo chão? O mundo
do velho Filipão já semelhava com o relvado de futebol: ali ele fintava o
tempo, esticando para prolongamento a partida com a vida. Restam-me duas,
sorria ele, ou perder ou ser vencido. E o dente avulso, já de tão solto, abanava
com riso.
Ali, no bar da Munhava, o velho não apenas insistia no riso. O que ele
mais fazia era retorcer a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão
vingava-se. A prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando,
se escutava na rua: « Gooloo!».
O
pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser
medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho, no salão do decrépito
bar, o velho celebrava o golo da sua equipa. As pessoas passavam e, pelo vidro,
espreitavam Filipão aos saltos festejando vitórias.
As pessoas sabiam: não havia rádio, não havia televisor. O bar era pobre
e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um
desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhava o televisor com
detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a
antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que se
instala, sem convite, e faz a festa ter causa.
O
reformado chegava manhã cedo, carregava no falso botão e sentava-se na habitual
mesa ao fundo da sala. Pedia a habitual cerveja e sorvia o líquido como se
bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a alma era uma boca. Estalava a
língua no único dente, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel
uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava, sentenciava as tácticas,
arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial e a distracção é a
morte do guarda-redes. Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta
da taberna e gritava para o exterior: «Já
começou!»
E
adentrava-se para assistir a mais um jogo de futebol que só ele testemunhava na
sua imaginação. Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na
cidade. O mais velho disse:
-- Venha pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
--
Já todos se riem, pai. – Confirmava
o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem.
Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Campeonato Mundial. Ele, o
Mister, o senhor sem anéis.
--
Desde quando, pai? Desde quando é que esse Mundial se arrasta?
Os outros fizeram sinal para que não se argumentasse com a realidade.
Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam
verdadeiros jogos, capazes de fabricar alegrias.
Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com
carimbo e redigido em máquina.
--
O que é isso?
--
Isto é para o senhor, meu pai.
--
Não sabe que eu não leio letras?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da
Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo contributo de sua vida e
pelos galardões alcançados. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar
junto da família.
--
Essa carta é falsa!
--
Como falsa?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
--
Veja esta outra carta!
E o pai estendeu o envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava
endereçada a Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho.
Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho
Gaúcho.
O moço foi saindo, sem fôlego para palavra, quando a voz do pai o fez
parar:
-- E já agora, meu filho, pode-me trazer, lá da cidade, um pau de giz para
desenhar um televisor novinho?!
Crónica de: Mia
Couto in “Pensageiro Frequente”
(Outubro de 2002)
Nota: O Mia Couto que me perdoe, isto não faz parte da história, mas para o velho Filipão Timóteo que ainda deve andar lá pelo bar da Munhava, delirando, às voltas com as estratégias e as tácticas futebolísticas, ofereço este vídeo para que ele possa apreciar o golo do seu ídolo. No fundo, no fundo, é uma lembrança, também, para os meus amigos e amigas que gostam de futebol...:))
Andava eu, há uns tempos atrás, nas minhas deambulações por essa Net afora, na pesquisa que faço regularmente, para satisfazer as exigências dos enigmas do amigo Rui Espírito Santo, autor do blog "COISAS DA FONTE", eis senão, quando me deparo com esta linda escultura de João Cutileiro. Acho, que pertencia a uma colecção que o escultor ia expor algures numa Vila do Minho.
Dou esta explicação, porque, mal bato com os olhos na estátua, o que foi que eu me havia de alimbrar? (como diria a grande Hermínia Silva) Pois, nada mais nada menos, do que este belo poema aprendido e decorado na escola da minha doce infância, e claro, da autoria de Afonso Lopes Vieira.