terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Mea Culpa.



Não duvido que o mundo no seu eixo 
Gire suspenso e volva em harmonia; 
Que o homem suba e vá da noite ao dia, 
E o homem vá subindo insecto o seixo. 

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, 
Nem chamo ao céu da vida noite fria; 
Não chamo à existência hora sombria; 
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo. 

A Natureza é minha mãe ainda... 
É minha mãe... Ah, se eu à face linda 
Não sei sorrir: se estou desesperado; 

Se nada há que me aqueça esta frieza; 
Se estou cheio de fel e de tristeza... 
É de crer que só eu seja o culpado! 


Antero de Quental, in "Sonetos" 

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22 comentários:

  1. Um soneto que muita gente devia ler.
    Para não atirar culpas para tudo e para todos.
    Menos para eles próprios.
    Beijinhos

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    1. Actos de contrição, Pedro? Duvido!
      Já quando Eva comeu a maçã, disse que a culpada foi a cobra!!:))

      Beijinhos

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  2. Poemas que nos acordam e nos fazem ser diferentes.
    Poemas para ler e guardar dentro da alma.

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    1. Lindas palavras que denotam o seu sentir poético, Luís Coelho.

      Obrigada, pela companhia.

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  3. Não é frequente alguém lembrar-se de Antero de Quental.
    Este soneto é fantástico, Janita.
    Beijinho

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    1. Que bom teres gostado, António. Fico muito contente.

      Beijinhos

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  4. Querida Janita, adorei a foto do cabeçalho, muito sugestiva :)
    Antero de Quental é considerado o poeta filosofo, e esta poesia que escolheste muito bem, reflecte esse seu lado de busca dos mistérios existenciais.
    Nem sempre a culpa é dos outros, basta olhar bem para dentro de nós.

    Um beijinho


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    1. Querida amiga Fê. Lá sugestiva é a foto, é!:) Coisas do meu filho, sabes?!
      Olhar para dentro de nós e descobrir os mistérios ocultos que em nós habitam, não é fácil. Falo por mim.

      Um beijinho amigo.

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  5. Cuidado que o Antero era um pessimista...

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    1. Era?...Pois não sei, Graça! Mas, quem não tem os seus dias de pessimismo?

      Beijocas!:)

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  6. Consciente ou não, somos sempre culpados do que nos acontece.
    Abraço

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  7. Consciente ou não, somos sempre culpados do que nos acontece.
    Abraço

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    1. Somos responsáveis pelas nossa opções, Elvira. Lá isso somos, mas já diz o provérbio que: - O Homem põe e Deus dispõe -

      Abraço e obrigada, amiga Elvira.

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  8. "Por minha culpa
    minha culpa
    minha tão grande culpa"

    do «Credo»

    O poema é uma proposta de reflexão
    boa proposta
    mas deixo outra
    entre culpados,
    outros ou nós
    mais vale prevenir os pecados
    seja qual for
    o pecador

    (fechemos a janela)

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    1. Essa passagem é do 'Credo' ou do 'Acto de Contrição', Rogério?
      Sabe que já não me lembro bem??

      O poema é um considerandum acerca de uma reflexão que todos deveríamos fazer.
      Entre a humanidade não há santos - todos somos pecadores - Essa é que é essa.

      (abramos a janela da alma para a introspecção)

      :)

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    2. Tem razão
      é do "Acto de Contrição"

      e se somos todos pecadores
      mais vale então
      a minha recomendação

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    3. Antes prevenir o pecado
      do que Contristar, Rogério?
      Concordo!
      Vamos tudo repensar,
      antes de pecar!
      .

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  9. Antero do Quintal. Ele chamava-se assim porque era no quintal que escrevia.

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    1. Escrevia no quental, sentado no pial?

      *-*

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  10. AS duas últimas estrofes são divinas e só me apetecia andar com elas escritas em autocolantes para depois as distribuir pelos eternos descontentes, revoltados e azedos!!!
    bjs

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    1. Inteiramente de acordo, Papoila!
      E a maior parte das pessoas que vivem a lamentar-se, fazem-no de "barriga cheia"...

      Beijinhos

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  11. Sacudir culpas é o que mais se vê.
    Porque há gente hábil na transferência de erros próprios, de incompetências e de mediocridades.
    E Antero sabia disso.
    Beijoka

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