sábado, 7 de fevereiro de 2026

__QUEM CONTA UM CONTO...

 


O ERMITÃO


Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se para uma gruta solitária para se dedicar inteiramente à salvação da sua alma. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de viver assim durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no Paraíso e podia ser contado entre os santos mais notáveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe e disse-lhe:

Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do músico e mal o encontrou disse-lhe:

- Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitências e tornaste agradável a Deus.

- Ora, respondeu-lhe o músico, baixando a cabeça: santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.

  O austero ermitão continuou a insistir:

- Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum acto de virtude.

- Em verdade não poderia citar nem um só.

- Mas então, como chegaste a este estado de pobreza?  Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património e o produto do teu ofício?



- Não: mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma dívida.

Essa mulher era nova e bela e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, protegi-a de todos os perigos, dei-lhe tudo o que possuía para resgatar a sua família, e levei-a à cidade onde ela devia encontrar-se com o seu marido e seus filhos.  Mas quem não teria feito outro tanto?


  A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar e exclamou:

 - Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritória, e, apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas de um pobre músico ambulante.


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Nota: Como todas as histórias e fábulas, também esta encerra uma moral. Cabe, a quem a ler, retirar a sua ilação.
Só me dispus a escolher e transcrever este conto, pela época egoísta e vil que a Humanidade atravessa.

O autor é Guerra Junqueiro e, naturalmente, é mais um Conto, que consta no mesmo livro que o anterior.

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