Acontecia então que o meu pobre cão de pai latia de prazer. Prisioneira daquele corpo, a Mãe sufocava ainda, amarrada pela inconcebível e obstinada força dos braços dele. Era quando ele se esvaía todo na sua golfada morna, pastosa e tão orgulhosamente masculina.
Se não repetissem – e raramente o faziam – a Mãe erguia-se, ia ao bacio, esfregava-se energicamente a um pano para nós desconhecido ou mesmo inexistente. Quando voltava para a cama, ele dormia tão profundamente como a paz das folhas de figueira nas noites de Verão. Dormia com o mesmo sono dos ratos, sem memória alguma e sem qualquer remorso de nos ter feito o mal do barulho, o mal de ser o único, o dono e senhor daquele corpo profanado no seu pudor. Então a chuva deixava de ser excessiva, e era apenas a chuva. Os animais que ao longe baliam, no escuro das arribanas, o crocitar das cagarras na noite oceânica, as patas das bestas raspando as lajes dos estábulos, o vento, tudo isso voltava a ser tão natural como o sono e a morte, na insuportável sucessão dos dias e na eternidade daquele mar.
A mim, que me enchera de raiva, só me apetecia chorar.
"Gente Feliz com Lágrimas" - João de Melo -
Meus amigos/as, nos próximos dias estarei muito ocupada com múltiplos afazeres, pelo que as minhas visitas aos vossos blogues, que tanto prazer me dão, não serão tão assíduas quanto o habitual.
Um beijinho muito amigo para todos vós.
Janita.
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