"GUERRA DA RUA, GUERRA DA ALMA."
Persigo a voz inimiga que me ditou a ordem de estar triste. Às vezes, dá-me para sentir que a alegria é um delito de alta traição, e que sou culpado do privilégio de continuar vivo e livre.
Nessa altura, faz-me bem recordar o que disse o cacique Huillca, no Peru, ao discursar diante das ruínas: «Aqui chegaram. Até as pedras partiram. Queriam fazer-nos desaparecer. Mas não conseguiram porque estamos vivos e isso é o principal.» E penso que Huillca tinha razão. Estarmos vivos: uma pequena vitória. Estarmos vivos, ou seja, capazes de alegria, apesar dos adeuses e dos crimes, para que o desterro seja o testemunho de outro país possível.
À Pátria, tarefa por fazer, não a vamos erigir com tijolos de merda. Serviríamos para alguma coisa, na hora do regresso, se voltássemos quebrados?
A alegria requer mais coragem do que a mágoa. À mágoa, ao fim e ao cabo, estamos habituados.
Autor: Eduardo Galeano
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