(…)
" -- O amarelo é para ti uma cor de sorte?
-- O amarelo sim, mas não o ouro, nem a cor do ouro. Para mim o ouro
identifica-se com a merda. No meu caso, é uma repulsa à merda, segundo me disse
um psicanalista. Desde criança.
-- Em “Cem Anos de Solidão”, uma personagem compara o ouro com a caca de
cão.
-- Sim, quando José Arcadio Buendía descobre a fórmula para transmutar
os metais em ouro e mostra ao filho o resultado da sua experiência, este diz:
«Parece merda de cão».
-- De maneira que nunca usas ouro.
-- Nunca. Nem pulseira, nem cordão, nem relógio, nem anel de ouro.
Também não verás em minha casa nenhum objecto que tenha ouro.
-- Tu e eu aprendemos na Venezuela uma
coisa que nos serviu de muito na vida: a relação que existe entre o mau-gosto e
a má-sorte. A «pava», como chamam os venezuelanos a este efeito maléfico que
podem ter certos objectos, atitudes ou pessoas de gosto rebuscado.
-- É uma extraordinária defesa que o bom sentido popular levantou na
Venezuela contra a explosão de mau-gosto dos novos ricos.
-- Fizeste, creio, uma lista completa de objectos e coisas que têm
«pava». Lembras-te agora de algumas?
-- Bem, há as óbvias, as elementares. Os caracóis atrás da porta…
-- Os aquários dentro das casas…
-- As flores de plástico, os perus reais, as mantilhas de Manila…a
lista é muito grande."
(…)
Nota: Este é um pequeno excerto de uma longa
conversa entre o escritor e jornalista Plinio Apuleyo Mendoza e o seu velho
amigo Gabo. Daí, nasceu este livro cheio de surpresas e encantos, escrito a quatro mãos, por assim dizer, onde Gabriel García Marquez, através de uma conversa informal, desfia com vivacidade as suas lembranças, opiniões e convicções. "O Aroma da Goiaba", está comigo há bastante tempo mas, hoje, sem contar, saltou de novo para as minhas mãos e, claro, trago-o, aqui, para compartilhar convosco um pouco da sua riqueza e, quem sabe, aguçar-lhes o apetite. Para quem ainda o não leu, não deve ser difícil encontrá-lo, por aí, numa livraria perto de si! :)
Em Barcelona, com o escritor Mário Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Barral, em 1970
Mesmo para aqueles que não apreciam doce de goiaba, recomendo vivamente a leitura deste livro recheado de interessantes fotos em momentos vividos pelo escritor colombiano, agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1982.
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