janita

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Argos.

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Eden

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segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Fado Falado, De Faca Na Liga e Alguidar...


Fado Triste
Fado negro das vielas/Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz/Voz inspirada de uma raça
Que mundo fora levou/Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora/Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra/que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes/Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias/Quando à traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela/Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão/E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude/Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão/Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava/Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar/Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha/O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama/Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela/Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília entrava a lua e a guitarra
À esquina de uma rua gemia/Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra/Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo/Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado/A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher/Para o despir e para o beijar
Mas um dia/Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele/O luar bate nas casas
O luar bate na rua/Mas não marca a sombra dele
Procurou-o como doida/E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado/Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, leviano/Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha/E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro/Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele/O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E o ciúme chegou como lume/Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio/Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal/A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou/Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito/Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha/Não há quem te valha
Tu tens de morrer/Há alarido na viela
Que mulher aquela que paixão a sua
E cai um corpo sangrando nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas/Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem/e entendem sua dor
Mãos que não mentem/Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam/Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou/Como lume queimou
Essas bocas febris/Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou/Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida/Um sonho, uma vida
De novo a surgir/Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar/E o sol a vibrar
Tem gritos de cor/Há alegria na viela
E em cada janela/Renasce uma flor
Veio o perdão e depois/Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não falar-se o fado.
                                                       
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 A razão deste post é que, hoje, ao tirar a roupa da máquina de lavar, lembrei-me de João Villaret e sorri com a lembrança. É verdade! Faço sempre a separação daquela roupa que irei estender no varal, no terraço das traseiras de casa, ao ar livre e à vista da vizinhança, da outra que quero secar num estendal, longe de olhares indiscretos. Não, a roupa nada tem de especial. São peças de lingerie absolutamente normais. Acontece que, no ínicio da minha adolescência, ouvi o João Villaret declamar um poema, na Televisão, do qual não recordo o nome. Apenas, me ficou guardada na memória esta quadra. Desde aí, até hoje, este procedimento de separar as peças de roupa se mantém.
“Ó minha descaradona
Tira a roupa da janela
       Que essa camisa sem dona
          Lembra-me a dona sem ela.”
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sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Ontem, Hoje e Amanhã!....


Imagem DAQUI



O Livro e o Leitor

Como se faz para conhecer um livro? Não é difícil!

Quando, numa biblioteca, numa livraria, em casa de um amigo, o livro nos chama a atenção, pegamos nele, abrimo-lo devagar e, com ele poisado sobre a palma da mão esquerda, folheamo-lo muito naturalmente com a mão direita. Parece que é assim que se faz, não é?

Os dedos, as costas da mão, que lhe alisam as páginas e, num voo leve, os olhos que correm pelo formigueiro das linhas e poisam numa palavra aqui, numa frase além, e seguem adiante.

Fazem-se as apresentações.

- Eu sou o livro – diz o livro que é de poucas falas, porque gosta mais de dizer as coisas por escrito.

- E eu sou o leitor, ou melhor, talvez seja o leitor - dizemos nós.

Folhear um livro é espreitar para dentro de uma caixinha sem chave, uma caixinha ao alcance das mãos e dos olhos. Não há segredos.

- Que tens tu guardado para me dar? – Perguntamos nós ao livro.

Aí o livro conta, não pára de contar o que dentro dele tem guardado para nós. Se, entretanto, nos sentamos numa cadeira de braços, para ser mais cómoda, e poisamos o nosso amigo livro sobre os joelhos, esta conversa que começou por ser hesitante e prudente, vai, quase de certeza, demorar que tempos. O tempo de lermos o livro do princípio ao fim ou de fio a pavio, como também se costuma dizer.

“ De fio a pavio” é uma expressão singular. Lembra-nos a vela que, acesa, muito trémula, resiste ao escuro à sua volta. A vela acaba por extinguir-se, apagar-se, quando não há mais pavio, mas o livro, esse não!

Terminado, fechado, o livro que nos deu prazer, fica-nos na memória, resiste ao esquecimento, iluminando ainda…

Autor: António Torrado

Poeta, ficcionista e dramaturgo, autor de várias obras de pedagogia.

Texto transcrito de um livro, encontrado, mas não perdido, no baú onde guardo os tesouros escolares do tempo em que cá em casa viviam um menino e uma menina, hoje, também eles com os seus meninos, aos quais incentivei, desde cedo, o gosto pela leitura. Prazer, esse, que foi sempre meu, desde que aprendi as primeiras letras.
Janita
                                                                                                                    

terça-feira, 22 de Maio de 2012

TRIÂNGULO AMOROSO.

Imagem recolhida na Net
Se alguém reclamar a sua autoria, darei os devidos créditos ou retirá-la-ei.

POEMA
(Matemático)


Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.


(Millor Fernandes)

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domingo, 20 de Maio de 2012

TARDE DEMAIS.

Cheguei à sábia conclusão que dormir demais também não é muito salutar e -  suprema sabedoria -  que quando fechar os olhos para sempre, terei todo o tempo do mundo para dormir.
Por vezes, tomamos consciência das coisas quando já é tarde demais...


"A tragédia da vida é que ficamos velhos cedo demais. E sábios, tarde demais!"
Benjamin Francklin

Já andava a sentir muita saudade de poesia na minha vida. De acordo com o que hoje sinto, lembrei-me da minha conterrânea Florbela Espanca.
Depois, ocorreu-me que, há tempos atrás, tive a infeliz ideia de lhe dizer adeus. Arrependida, chamei-a e pedi-lhe desculpa. 
Ela, com um sorriso triste, porém, prestimosa e cheia de boa vontade, acorreu ao meu encontro sem qualquer tipo de ressentimento. As almas sofridas e amarguradas nem sempre são azedas e rancorosas. Diria que são, pelo contrário, almas cheias de bondade e com uma grande capacidade de perdão.

Tarde Demais...

Quando chegaste, enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar.
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu fui nova e linda...
Mas a minha boca morta, grita ainda:
"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!"


Soneto de Florbela Espanca, in "Livro de Soror Saudade"

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quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Cansaços e Desabafos.

Não, esta senhora não sou eu.
 Não tenho nenhuma foto minha a dormir, o que lamento, agora dava-me jeito.


 
Sinto-me terrivelmente cansada! Física e mentalmente.
Cansada de trabalhar a tempo inteiro, de números, papéis, impostos, burocracias, caloteiros, cheques sem provisão, da crise, falta de palavra, dos políticos e da politiquice em geral. E, sobretudo, cansada de esperar a minha tão almejada aposentadoria, que cada vez vejo mais distante.
Por vezes, sinto-me tão cansada que até chego a cansar-me de mim.
Bem, devo ser sincera e reconhecer que isso não é muito difícil.

 Vale-me esta coisa chamada Internet, que adoro, mas onde gasto – atenção, que eu não digo perco – muito do tempo destinado ao descanso que preciso.

Nunca fui uma pessoa que tivesse necessidade de muitas horas de sono, mas nos últimos meses tenho dormido pouquíssimas horas. Daí o cansaço se ir acumulando.
Acho que vou ter de fazer uma cura de sono, nem que para isso tenha de recorrer, não ao Xanax nem ao Prosac, mas ao Sedoxil que tenho sempre em casa, desde que a minha Mãe faleceu e passei noites sem dormir.

Perdoem-me o desabafo…mas se este canto é meu, acho que tenho o direito de aqui ir deixando um pouco de mim…antes que seja tarde demais.

 Resumindo e concluindo, se deixarem de me ver circular pela blogo, nos próximos tempos, durante os dias de expediente, é porque resolvi pôr o sono em dia!

Beijinhos.     

domingo, 13 de Maio de 2012

CONCEITOS DE NORMALIDADE.



Todos os comportamentos, palavras e atitudes, que fujam àquilo considerado socialmente correcto, são prontamente apontados como provindo de alguém sem educação, no mínimo, contendo um certo cunho de irresponsabilidade e até de alguma loucura. Como o desejo de agradar fala sempre mais alto, assim, se foi perdendo muito da autenticidade, intrínseca, da personalidade de cada um.
Felizmente, ainda há excepções! Ainda existem pessoas que se manifestam, tal qual são, indiferentes à opinião que certos moralistas possam emitir sobre si. Admiro, incondicionalmente, esse tipo de pessoas, ou eu não me incluísse entre elas.
Afinal, o que significa ser-se socialmente correcto e normal ?

Vem isto a propósito –ou despropósito- conforme queiram, de um filme que nos últimos dias não me sai da mente. Refiro-me a “Voando Sobre Um Ninho de Cucos”.
Vi este filme, pela primeira vez, no antigo Cinema da Trindade, no Porto. Ainda existia, num terreno contíguo, um parque de estacionamento, ao ar livre, onde estacionei o carro.
Fiquei tão perturbada, com o final do filme, que, ao sair do parque, bati num dos mecos que delimitavam o espaço de saída.
Foi a primeira e única batida, por minha culpa, até hoje!

                                                                      
Creio que este filme ficará para sempre assinalado, na história do cinema, como um permanente questionar sobre os conceitos de normalidade, dos métodos usados no tratamento psiquiátrico e, por último, na desumana crueldade da lobotomia, solução final, para aquietar os loucos rebeldes.

Foi esta personagem que me reconciliou com Jack Nicholson, a quem eu detestava. Hoje, ele pode desempenhar qualquer papel de pessoa cínica, trocista, mau carácter,vigarista, o que for...tem sempre a minha simpatia…

 I love you, McMurphy!!
Lá está…coisas de pessoa pouco normal.

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terça-feira, 8 de Maio de 2012

Desinventar a tristeza.

                                                                   
Neste tema, inesquecível, o Chico também samba divinamente em castelhano. Adoro esta canção.
Tem tudo a ver com o meu estado de espírito.



"Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."
Fernando Pessoa

O que este poema representa para mim...nem às paredes confesso!
Mas posso dizer que é um sentimento renovador e de libertação.

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domingo, 6 de Maio de 2012

MÃES.



No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade
Poema à mãe.

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sexta-feira, 4 de Maio de 2012

A IMPORTÂNCIA DE SERMOS AUTÊNTICOS E VERDADEIROS.


"Pouco importa o julgamento dos outros. Os seres são tão contraditórios que é impossível atender às suas demandas, satisfazê-los. Tenha em mente simplesmente ser autêntico e verdadeiro..."

Dalai Lama



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões in "Sonetos"


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quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Disseram-me Elas!


Muito frio e vento na Costa de Caparica, mas o sol estava radioso naquele dia. Almoço de aniversário, onde homens não entraram...num restaurante em frente ao mar. Passeámos pelo areal, recordámos cenas do Verão passado, falámos de tristezas e alegrias.

Miminhos para a aniversariante, não faltaram.



Apesar do vento, ficámos imenso tempo a apreciar o mar, sereno, brilhando sob a incidência dos raios do sol. Um encantamento!



Quando o tema de conversa derivou para maridos, falaram-me elas...nos maridos das outras.
E não é que eu não conhecia?