janita

janita
Rosas do meu quintal.

Argos.

Argos.
Vista parcial do Rio Douro e da Ponte D. Luís. A foto está pouco nítida por ter sido tirada do interior do Funicular dos Guindais!

Eden

Eden

quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

ESPELHOS DA ALMA.





Se um dia olhar para o céu e não te ver,
é que sou a onda do mar e não consigo te esquecer.
 Sou feliz do teu lado sem do seu lado estar.

 
 

Pois tu és isolado no meu modo de pensar
quando estou triste e não encontro solução
lembro-me que tu existes e moras no meu coração!
 

Carlos Drummond de Andrade

Quem pensar que este autor apenas escreve poemas românticos, pueris e idílicos, está redondamente enganado. Drumond, gostava  muito de poesia erótica e escrevia-a como ninguém.
Vejam este soneto! Sinceramente, foi a primeira vez que o li e ainda não o consegui definir bem. Defeito meu, certamente!




Beija-me, minha alma, doce espelho e guia.


Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,
beija-me, acaba, dá-me este contento,
e cada beijo teu engendre um cento,
sem que cesse jamais esta porfia.
 
Beija-me cem mil vezes cada dia,
pra que, chocando alento com alento,
saiam deste interior contentamento
doce suavidade e harmonia.
 
Ai, boca, venturoso o que te toca!
Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!
Acaba, vida, dá-me este contento,
 
Dá-me já tal gosto com tua boca.
Beija-me, vida: tudo em mim lateja.
Aperta, morde, mas com tento.
 
Não clarifica o autor, o que beija a boca, mas devo dizer que retirei este Soneto de um site de sonetos de Drummond, com o título “Jardim de Poesias Eróticas”.
Como curiosidade, vejo haver aqui duas palavras homónimas. Contento e com tento, ou seja, agrado e cuidado.
 
 Pronúncia igual, porém grafia e sentido diferente…J
  E esta, hein?
 
Veja como se pintam lindas margaridas.
 
 
A Arte é a maior e melhor forma de expressar e sublimar um sonho. Qualquer tipo de Arte!
 
Que pena eu não ser uma artista...
 
 
 

domingo, 27 de Janeiro de 2013

"ÓS DESPOIS E INDIAIS"...

Das velhas glórias do Cinema Português, o filme "O Costa do Castelo" é aquele que mais me divertiu  e que vi vezes sem conta, uma vez que o tinha - e tenho - gravado em cassete, no antiquiquíssimo sistema Beta. Hoje,  tenho uma gaveta cheia dessas gravações, mas que continuam guardadas como peças de museu, já que o leitor dessas cassetes não tem qualquer utilidade.
A cena que mais nos divertia, era aquela em a personagem Rosa Maria, interpretada pela saudosa Hermínia Silva, fazia de discípula do não menos saudoso António Silva, no ensaio da aspirante a fadista. As calinadas ou pontapés na gramática, eram uma forma propositada de humor irresistível.
Querem acompanhar-me e relembrar esses momentos?


                            CLIQUEM AQUI P.F.
 Já que não consegui trazer
aqui o vídeo, vamos nós ter com ele!


                                                       
                      
                                                       
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sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

A DANÇA DOS TAMANQUINHOS.

Recebi , via e-mail, este esplendido vídeo que uma amiga muito querida{a Miuíka}me enviou, e gostaria de partilhar convosco.
Andre Rieu, o famoso Maestro e violinista, é o único elemento masculino a participar nesta maravilhosa dança, tipicamente holandesa.
Espero que gostem.


 

Como não poderia deixar de ser, dado o meu gosto pela poesia, aqui fica um poema infantil, da autoria de Cecília Meireles.


"Poema Canção dos Tamanquinhos
 
Troc...troc...troc.. troc...
ligeirinhos, ligeirinhos,
Troc...troc...troc...troc...
Vão cantando os tamanquinhos...
Madrugada. Troc... troc
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, troc... troc...
Vão cantando os tamanquinhos...


Chove. Troc... troc... troc...
No silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
Vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
Os que têm sedas e arminhos,
Sonham, troc... troc... troc...
Com seu par de tamanquinhos.
 

 
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Amigos, desejo-vos um excelente fim-de-semana.
Beijinhos. 

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terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Nem Contigo Nem Sem Ti.


 
 

A Guerra das Rosas




Partis-te sem dizer adeus nem nada
Fingiste que a culpa era toda minha
Disseste que eu tinha a vida estragada
E eu gritei-te da escada que fosses morrer sozinha
Voltaste e nem desculpa pediste
Perguntaste porque é que eu tinha chorado
Não respondi, mas quando vi que sorriste
Eu disse que estava triste porque tu tinhas voltado
Zangada esvaziaste o meu armário
E em nada ficou meu disco preferido
De raiva rasguei o teu diário, virei teu saco ao contrário,
dei-te cabo do vestido.
Queimaste o meu jantar favorito
Deixaste o meu champanhe azedar
E quando cozinhei o piriquito para abafar o teu grito, eu comecei a cantar
Fumavas e eu nem suportava o cheiro
Teimavas em me acender um cigarro
E quando tu me ofereceste um isqueiro
Atirei-te com o cinzeiro, escondi as chaves do carro
Não queria que visses televisão em dia de jogos de Portugal
Torcias contra a nossa seleção, se eu via um filme de acção tu mudavas de canal
Tu querias que eu fosse contigo ao bar
Só ias se eu não entrasse contigo
Saía pra não ter de te aturar, tu ficavas a dançar com o meu melhor amigo
Gozavas porque eu não queria beber.

Ralhavas ao ver-me de grão na asa
Eu ia à festa sem te dizer, nunca cheguei a saber, se tu ficavas em casa
 
  
Tu deste ao porteiro roupa minha
Soubeste que lhe dera o teu roupão
Eu dei o teu anel á vizinha pela estima que lhe tinha
Ofereceste-lhe o meu cão
Foste lendo o teu romance de amor
Sabendo que eu não gostava da historia
No dia de o mandares para o editor, fui ao teu computador
Apaguei-o da memoria.


Se cozinhavas eu jantava sempre fora
Juravas que eu havia de pagá-las
Aqui na rua dizias-me a toda a hora que quando eu me fui embora
Tu ficaste-me com as malas
Depois desses anos infernais
Os dois eramos caso arrumado
Achando que também era de mais
Juramos pra nunca mais, foi cada um pra seu lado.
No escuro tu insistes que eu não presto
Eu juro que falta a parte melhor
O beijo acaba com o teu protesto, amanhã conto-te o resto
 Boa noite, meu amor!
 

 


 

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domingo, 20 de Janeiro de 2013

A Poetisa dos Excessos.




“Para as traições, para as mentiras, para o que é vil e falso, temos nós remédio: o orgulho; mas para a dor que nos faz mal, para essa, nenhum remédio há."

 








 
 
Este vídeo é um documentário sobre o nascimento e vida de Florbela Espanca.
Peço-vos que não deixem de o ver. Eu, apesar de já ter lido bastante acerca da sua obra, fiquei a saber muitas coisas que desconhecia sobre esta mulher sofredora e incompreendida, que foi considerada como a poetisa dos excessos. 
 

 Vaidade

 
 Sonho que sou a Poetisa eleita,
 Aquela que diz tudo e tudo sabe,
 Que tem a inspiração pura e perfeita,
 Que reúne num verso a imensidade!
 

 Sonho que um verso meu tem claridade
 Para encher todo o mundo! E que deleita
 Mesmo aqueles que morrem de saudade!
  Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

 

 Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
 Aquela de saber vasto e profundo,
 Aos pés de quem a Terra anda curvada!

 

 E quando mais no céu eu vou sonhando,
 E quando mais no alto ando voando,
 Acordo do meu sonho... E não sou nada!

 
 
 


 

sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

SEM ESFORÇO NADA SE CONSEGUE.

 
 

Que nada é impossível
não é verdade;
Todo o mundo faz nada
com facilidade!

Millôr Fernandes.
 


 
Já Fernando Pessoa preconizava que a indolência nos conduziria a um futuro sem saída. Ou haverá uma outra intenção neste soneto?
O que estará errado no mundo actual? A inércia, a indiferença ou o mesmo mal de sempre?  A pretensa supremacia masculina?
Ou será que  houve uma perigosa inversão de papéis?
Responda quem quiser...:)



"A parte do indolente é a abstracta vida.
Quem não emprega o esforço em conseguir,
Mas o deixa ficar, deixa dormir,
O deixa sem futuro e sem guarida,

Que mais haurir pode da morta lida.
Da sentida vaidade de seguir
Um caminho, da inércia de sentir,
Do extinto fogo e da visão perdida,

Senão a calma aquiescência em ter
No sangue entregue, e pelo corpo todo
A consciência de nada querer nem ser,

A intervisão das coisas atingíveis,
E o renunciá-las, como um lindo modo
Das mãos que a palidez torna impassíveis."

Beijinhos, 
 a todos desejo um excelente fim-de-semana;
com toda a  preguiça, a que nos obriga o mau tempo.:-))

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quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

ESTRANHAS FORMAS DE AMAR.


 
 




 
Amor como em Casa
 
 
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que
não é nada comigo.


 
Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,

uma tarde num café, um livro.
 
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no

amor como em casa.

 

Manuel António Pina,
 in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo.
 Calma é Apenas um Pouco Tarde"
 
                                                                 

                                                                    


domingo, 13 de Janeiro de 2013

Um Pouco de Tudo...Sem Exageros.


 
O Vício do Exagero
Hoje, no café, aqui-del-rei que eu exagero, aqui-del-rei que conto uma anedota e a anedota sai da minha boca transfigurada.
Aqui-del-rei que descrevo um indivíduo e ponho bigodes de polícia onde havia somente uma discreta penugem.
É certo, exagero. Começo a pintar um botão, e é capaz de me sair o cosmos. Mas pergunto: — Pondo como condição que não haja mentira em absoluto no que diz, quem é mais de aqui-del-rei: quem acrescenta, enriquece, aumenta e vivifica as coisas, ou quem as diminui, amesquinha, empobrece, achata e reduz a nada?

Miguel Torga, in "Diário (1933)"
 
 
 
 
                                                                  
 
 
Existem pessoas que não pretendem ser boas e, no entanto, são as melhores.
Eu tenho o imenso privilégio de ter conhecido algumas, aqui, na blogosfera.
Tão grandes, simples e nobres quanto a personagem de que fala Miguel Torga.
Obrigada, por me engrandecerem com a vossa amizade.
Beijinhos e boa semana.
 

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quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

PRETIDÃO DE AMOR.

 

Endechas A Bárbara escrava

 
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Luís Vaz de Camões                                         
 
                                                                     
 

 

segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

MIRAGENS.

Era uma vez um homem sentado diante de casa. a olhar para o rio. Casa é maneira de falar por­que não se pode chamar casa a uma barraca de tábuas costuradas com arame e reforçadas de pla­cas de cartão, com um pedaço de zinco a servir de telhado. Mas nessa parte da cidade, em Cabo Ruivo, ao pé dos fumos da Siderurgia, quem tinha chegado de África, como o homem, sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas, era dessa forma que se go­vernava. O Boeing de Angola desembarcava em Lisboa as pessoas fugidas à guerra, e no dia seguinte lá andavam elas, truca-truca, a martelar cabanas num baldio de ervas frente aos vapores do Tejo. en­tre armazéns ao abandono e um hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a peie de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas.

Barracas assim contavam-se para cima de três dúzias, umas mais perto outras mais longe da água, feitas com os desperdícios de uma obra (tijolos, pranchas, areia, ruínas de andaime) que não se com­pletara sabe Deus porquê, deixando ferramentas oxidadas, buracos de cabouco e sacos de cimento, de que as pessoas se serviam para inventar moradias. Passeava-se por ali como num acampamento de pobres, numa aldeia de miséria: havia quem secasse camisas numa corda entre dois paus, quem soprasse o lume de uma panela de esmalte, agachado para urn borralho de cinzas, havia cães arre­dios, medrosos de pedras, a farejarem canecos, havia crianças mulatas a brincarem com bocaditos de canas, havia a cidade que parecia um grande pulmão de chaminés e janelas a respirar nas costas do homem, e havia sobretudo o rio, que para aquelas bandas, a bem dizer, nem rio era: um pân­tano cinzento, horizontal até aos morros de Alcochete, ou do que, para viajantes de Angola, se cal­culava que fosse Alcochete, a brilhar, à noite, lantejoulas de leque sevilhano.
 

Ao homem sentado diante de casa tanto se lhe dava que se tratasse de Alcochete, Nova Iorque ou Paris: tinha um rectângulo de cortiça nos joelhos, para a paciência de cartas, e ao levantar os olhos do baralho, com a cabeça ainda em Luanda, não era o Tejo que via: era uma ilha de palmeiras, uma concha de arcadas com aves pernaltas nas empenas, e fragatas a gasóleo largando para a pesca, num rastro de motores e batucada.

O homem morou quarenta e sete anos em África, a trabalhar de motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes, e custava-lhe habituar-se a uma terra de frio onde ninguém o co­nhecia, tirando os vizinhos da desgraça que dividiam com ele uma língua de lama e alforrecas, fur­tada aos desenfades do rio, E mesmo assim: calado como era, as poucas frases que dizia reservava-as para os azares do baralho, valete de ouros sobre a dama de paus, cinco de copas sobre seis de espadas, um duque desesperado a acenar asas de mocho, sem terno preto onde ancorar.

De forma que estava o homem diante de casa, às voltas com ases e manilhas, e sentado ao lado dele, num balde ao contrário, um cego de óculos de mica. Muito direito, atento com os ouvidos, que é como os cegos vêem, a enrolar uma mortalha com deditos de croché, e mal os sons rareavam, si­nal de que o homem hesitava a pensar, o cego perguntava logo, inquieto;

— Como é Lisboa, Artur?

E, ao fim de um silêncio comprido, o homem, a desfazer a paciência com a mão aberta e a olhar para Alcochete:

— Lisboa?

Guardava as cartas de má morte no bolso, e ficava-se, de pálpebra rancorosa, no hidroavião, à medida que pelas redondezas começava uma agitação de ralhos e de caldos em púcaros de folha, que era o jantar de quem viera de Angola, sem dinheiro para uma quarta de chouriço. O homem não comia: demorava-se crepúsculo adentro até o hidroavião desaparecer nas luzinhas de Alcochete ou de Paris, que para os nascidos em África, como era o caso, era igual ao litro, e o cego ao lado dele. Também sem caldo, impassível nos óculos de mica, a puxar fósforos e a acender o cigarro na colher da mão. Já estava tudo escuro, só candeeiros a tremelicarem ao longe e um ventinho nas er­vas, e o homem, de gola levantada por causa das traições de bronquite, a pensar que ele e o bara­lho se achavam em Portugal há três semanas no mínimo: do andar na Amadora que umas senhoras de fitas ao pescoço lhe prometeram no aeroporto nem a sombra, e nisto o cego, curioso, a chupar o cigarro, numa voz que se confundia com os grilos:

— Como é Lisboa, Artur?

O homem olhou em torno: ralhos, estalos de púcaros de folha, choros a fosforescerem aqui e acolá, pavios de azeite em amparos de tela, a labareda da Siderurgia, no meio de tubos doirados, inundando trevas de carvão. Nada, em resumo, que se comparasse às noites de Angola, entre Malanje e Luanda: o homem-motorista, estrada fora, de bife com batatas no papo, a mascote, que era uma pretinha de tanga, a dar-a-dar no espelho, uma paz de capim no mundo inteiro, e um quarto como deve ser, alugado na Mutamba, à sua espera. E, como se não bastassem a barraca, a fome e o ventinho das gripes, o cego muito direito, embrulhado no tabaco e nos óculos de mica, a insistir, na vozinha de grilo:

— Como é Lisboa, Artur?

Acabado o caldo os de África espalhavam-se no baldio, entre o armazém e o pontão, a tropeça­rem ao acaso nos desníveis de toupeira e calhaus adormecidos. Um indiano de sandálias tinha acen­dido um candeeiro de petróleo num contentor tombado, feito um balcão com caixotes, colado um cartaz com a equipa do Belenenses na ferrugem, vendia fiado gasosas e cervejas mornas, à espera que os clientes recebessem o subsídio do Governo, e o cego na dele: — Como é Lisboa. Artur?

De ideias fixas o cego, pensou o homem cuja cabeça continuava no canto oposto do mar, agarrada ao musseque onde crescera, entretendo-se sozinho no quintal das traseiras, sob um braço de tília. De certo modo, embora estivesse em Cabo Ruivo permanecia em África, com a mãe e as irmãs mais velhas (o pai trabalhava há séculos no Congo e es­crevia-lhes, no Natal, postais de Boas Festas com selos esquisitos) e, por estra­nho que parecesse, o que recordava me­lhor não eram coisas de adulto, já ho­mem, já motorista dos holandeses dos diamantes, a conduzir um camião para cá e para lá, de Malanje a Luanda e de Luanda a Malanje, O que, pelo contrário, lhe aparecia mais vezes na lembrança, em sonhos até, que é quando, como os olhos estão fechados, a gente enxerga para dentro, era o braço de tília e ele de calções, pasmado, a observar um sapo numa greta de muro, um sapo parecido com o dono da cantina, onde a mãe o mandava comprar arroz, favas ou cebola para o almoço de domingo, dia em que se alargava um bocadinho no cozido. E no instante em que se principiava a sentir o gosto da cenoura às rodelas na boca, lá vinha o cego com a cantilena do costume;

— Como é Lisboa, Artur?

O cego era criatura de adereços: possuía uma bengala de metal que se encolhia e aumentava como os metros articulados dos carpinteiros, e nas raras oca­siões em que se levantava do balde caminhava de queixo ao alto, varrendo os passos com aquela espécie de antena: ia do balde à arrecadação ali perto, em que escondia um cobertor, e como, por assim dizer, era sempre noite para ele, a bengala impedia-o de esbarrar em algerozes e de tombar em valados. Talvez fosse o único, dos que chegaram de África, capaz de caminhar na cidade, se­guindo a haste mágica que devia ter urn mapa das ruas no castão. Se quisesse ia de certeza de Cabo Ruivo à Amadora (é um exemplo) sem uma hesitação para amostra, pelo que o do baralho não en­tendia a pergunta, soprada, com o ventinho da tarde, nos intervalos das cartas:

— Como é Lisboa, Artur?

E o indiano entrincheirado no caixote, a designar com o desprezo do dedo as gaivotas, o hi­droavião a desfazer-se e os pântanos do Tejo, o indiano das gasosas, desiludido com a clientela que lhe não pagava, a lembrar-se do seu café de dois andares em Moçâmedes, onde os fazendeiros lhe limpavam todas as tardes, e a pronto, as garrafas da loja, o indiano, inchado de desgosto, a arras­tar-se no contentor como um peru de Natal:

— Lisboa é esta infelicidade, amigo.
 

E, pelo gesto, não era só dos clientes que falava: era das barracas, dos caldos, das camisas nas cordas, dos cachorros vadios sempre à cata de sobras, e talvez que dele próprio também, que nos tempos de África nem um automóvel americano lhe faltava, comprido como uma baleia, de dentes dos cromados ao léu, com os olhos dos faróis arredondados de zanga contra os imbondeiros. Falava das barracas, dos caldos, das camisas nas cordas, dos cachorros e dele próprio, mas o desprezo do dedo, por acaso com um anel de prata lavrada a alumiar-lhe o gesto, fixava-se no hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a pele de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas.
Fixava-se no hidroavião e o homem, atrás do dedo, a olhar as asas tombadas, os flutuadores, que pareciam pantufas gigantescas de caminhar sobre marés do Tejo, as cadeiras sem passageiros, a hé­lice de moinho de poço, o lugar do piloto encostado ao volante, parecido com o dos camiões dos diamantes: só não havia a mascote da pretinha de tanga, pendurada de uma guita, a dar-a-dar no es­pelho. Isso, pensou o homem, não constituía problema: a questão era uma pessoa instalar-se ao guiador, que em chegando a Luanda encontraria, apesar da guerra que por lá faiscava, a destruir vi­vendas e jardins, uma capelista pronta a vender uma mascote nova, de modo que alcançaria Malanje com a boneca, toda contente, a dançar merengues no vidro.
Quanto a colegas de viagem, que de Lisboa a Malanje é um esticão, convidava o cego que, como ele, não-tinha caldo nem família, e de caminho dava uma volta sobre Cabo Ruivo e explicava-lhe a cidade: monumentos, estátuas, igrejas, o carrossel do oito, bairros de ricos, tudo. Largariam de manhã cedo, à hora que os albatrozes se levantam das mimosas do lodo e o nevoeiro se esfuma em Alcochete, Nova Iorque ou Paris, mos­trando paus de fio e telhados tremendo à flor da água, e o indiano do automóvel das Américas, in­crédulo:

— Esse hidroavião não vale nada, coitado.
 

E realmente não parecia valer nada: em três semanas que o homem ali estava, sentado diante de casa com o baralho de cartas, o hidroavião quietinho, sem que um farrapo de lona se mexesse ao vento, sem que o leme da cauda desse sinal de abano, sem que qualquer luz se acendesse na car-linga. Resumindo: sem nenhuma vontade de voar. Um trambolho, decidiu o homem, uma coisa inú­til, uma gaivota morta, e continuou a pensar isto à medida que se dirigia para ele, escoltado pelo cego dos óculos de mica, muito direito, muito seguro do caminho, a tricotar a erva com a bengalinha de metal.

Sentou-o num lugar à janela, recomendou-lhe:

— Segura-te.

Ocupou o volante, experimentou os pedais, as alavancas e as manivelas perras, e voltou a cabeça para informar o outro:

— Aguenta um bocadinho que já te mostro Lisboa.

Anos depois, muitos anos depois de o homem e o cego terem levado sumiço, sabe-se lá para onde, o indiano continuava a jurar, a quem o queria ouvir, que o hidroavião não saiu do mesmo sí­tio, não se deslocou um milímetro, não se ergueu nem isto do pontão. É neste ponto que as diver­gências começam: há quem garanta que os empregados da Câmara vieram com uma furgoneta e transportaram para a sucata aquele morcego sem préstimo. Mas há também quem afirme, pronto a jurar, que o hidroavião, com o homem e o cego lá dentro, correu um nadinha na água, subiu a pino, e partiu, sobre Lisboa, na direcção de Luanda, na direcção do mar. E acrescenta, quem sabe, que se via um braço, saído de uma janela, a mostrar monumentos e igrejas a uns óculos de mica, e uma pretinha de tanga, muito alegre, suspensa de um cordel, a dar-a-dar no pára-brisas em acenos de adeus.

 
António Lobo Antunes

 "A História do Hidroavião"

 
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