sábado, 2 de maio de 2026

MAIAS DE MAIO

 Maio de Minha Mãe.


O primeiro de Maio de minha Mãe

Não era social, mas de favas e giestas.

Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Avô

Polimento, esquadria, engrade, olhá-la ao longe 

Dava assento a Florália, o meu primeiro amor.


Já não se usa poesia descritiva,

Mas como hei-de falar da Maromba de Maio

Ou, se era macho, do litro de vinho na sua mão?

O primeiro de Maio nas Ilhas, morno como uma rosa,

Algodoado de cúmulos, lento no mar e rapioqueiro

Como Baco em Camões,

Límpido de azeviche

E, afinal de contas, do ponto de vista proletário,

Mais de mãos na algibeira do que Lenine em Zurich.

(Porque foi por esta época: eu é que não sabia!)


A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas

E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro

Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu Avô

Cujas quedas iguais, gravíficas, profundas


Muito prego em cunhal deixaram,

Muita madeira emalhetaram,

Muita estrela atraíram ao bico da foice do Ribeiro

Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.

Favas de Maio do meu tempo!


Havia poder popular

Nas mãos de minha mãe, que as descascava como flores

E flores eram de si, na flórea abada

Como se já guardassem flor de laranjeira e açaflor

Nas suas intenções de Maio 1918, para as depor

(Nem pensada sequer) na fronte à minha amada.


Vitorino Nemésio, in 'Antologia Poética'




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