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| Fonte da foto. |
"Naquela tarde, em véspera de jogo, Jujú Chuteirinho convocou-me. O seu semblante era sério, solene. Manuseava um varapau como se fosse uma lapiseira gigante.
- Estás a ver a pequena área?, perguntou fazendo uns rabiscos na areia.
Os rabiscos complicaram-se ilustrando, enquanto falava, a minha evolução caótica pelo relvado. depois, voltou a reforçar o traço num pequeno quadrado:
- Faz de conta que a pequena área é uma miúda . Sim, uma miúda, uma gaja. É preciso descascá-la, acariciá-la, beijá-la. Mas, depois... depois...
- Sim, depois?, inquiri eu, meio adormecido pelo riscar da madeira na areia.
- Depois..., depois pergunto eu: Depois, no momento decisivo, é preciso o quê?
Era óbvia a alusão do Mestre Jujú, o melhor treinador de todos os tempos. Para mim, porém, a metáfora tinha-me escapado. O amor não tem «depois». O amor é o tempo inteiro consumindo-se no instante.
Uma vez mais a poesia me tinha fintado. Pode haver um Mister para as artes da bola. Mas o único treinador para as lides da Vida, somos nós mesmos."
Curto excerto do conto "Fintado Por Um Verso" um dos que fazem parte deste livro.
Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi jornalista e professor. Actualmente, é biólogo e escritor.
Em 2011 venceu o Prémio Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo de Mia Couto para o desenvolvimento da Língua Portuguesa.
Em 2013 foi galardoado com o Pémio Camões e em 2014 com o Prémio norte-americano Neustadt.
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