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À minha Alma inquieta e melancólica fez-lhe muito bem ter passado a manhã, do dia de São João, a respirar o ar do mar e sentir o cheiro fresco da maresia.
Não posso dizer que fui desabafar com o confidente de tanta e tanta gente. Não, não tenho o hábito de lhe falar. Fui para lhe admirar a grandiosidade, para meditar nesta minha sensação de dúvida e desagrado que desde há um tempo se instalou em mim, e, para me molhar nas suas águas salgadas como que para me purificar. Se regressei mais pura e de mente limpa de ressentimentos, ainda não sei, mas sem dúvida que voltei mais leve e fresca.
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Como já habituei os meus leitores e eu própria não passo sem Ela, a Poesia, pedi este belo poema emprestado ao homem da terra agreste. Lembra-nos o Mar da Era dos Descobrimentos, tal como eu tento descobrir-me a mim.
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!
Mar!
E quando terá fim o sofrimento?
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento?!
Miguel Torga - 'in' Poemas Ibéricos
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