Miguel Torga, médico, poeta e dramaturgo, é o meu poeta/escritor de eleição. Desde muito jovem que sinto por este grande vulto da Literatura Portuguesa Contemporânea, uma enorme ternura e admiração, pelo seu amor às gentes rudes e genuínas da região que o viu nascer, cujas vidas difíceis tão bem retratou nesta colectânea de 23 contos, editado em 1941.A linguagem usada é a típica das aldeias transmontanas naquela época da primeira metade do século passado.
Nascido em São Martinho de Anta, região transmontana, em Agosto de 1907, Adolfo Correia da Rocha adoptou o pseudónimo literário de Miguel Torga em homenagem aos três grandes “Migueis” espanhóis: Cervantes, Molinos e Unamuno e Torga por ser o nome de uma urze que existia em abundância naquela região de Trás-os-Montes.
Miguel Torga faleceu em Coimbra em Janeiro de 1995.
O conto que escolhi não será o mais interessante, mas é o meu preferido. Talvez porque define aquilo que entendo por verdadeira amizade. Mesmo quando parece desfeita, ela vive latente no fundo do coração e emerge no momento crucial...
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"INIMIGAS"
"Desde o arraial da Senhora da Fraga que a Cacilda e a Sofia se não podiam ver. Até ali muito amigas, sempre agarradas uma à outra, como irmãs. Mas meteu-se a ciumeira entre elas e aquela amizade foi um ar que lhe deu. Fiadas no paleio do Augusto, a prometer um tostão a uma e cinco vinténs a outra, pareciam cadelas ao mesmo osso. Não saberem que quem é homem diverte-se, e que em coisas assim o melhor é fazer das tripas coração e deixar correr! Qual o quê! Puseram-se a dar ouvidos aos vinte anos, e, não é nada, faziam lume mal se encaravam.
Na noite da tal zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer peras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.
- E uma prenda?
Que aceitavam, já que estava tão daimoso.
Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas!
O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.
Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da Capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica!
Na noite da tal zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer peras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.
- E uma prenda?
Que aceitavam, já que estava tão daimoso.
Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas!
O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.
Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da Capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica!
Pipas e pipas de vinho debaixo da carvalhada, e do melhor, que parece que todos capricham nisso. Tascas de fritos, mesas de cavacas e de refrescos, medas de regueifas, carros de melancias, um louvar a Deus. Fartura de tudo! De maneira que quem diz: vou ao arraial da Senhora da Fraga e vai, já se sabe que não arranca de lá antes do alvorecer. Por isso, até a Santa estremeceu no altar quando a Cacilda disse que se ia embora. Perguntava-lhe a Ti Constança, abismada:
- Que mosca te mordeu, rapariga? Tu estás maluca ou quê?
Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.
Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez à Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana-verde que parecia um pé-de-vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.
E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos do casamento dele a correr em Favaios com uma de lá!
Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, senão pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas do Augusto bater as asas! O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela vilania no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.
Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. De nada valeu! Danadas!
Como a Sofia casou primeiro, disse-lhe a Rosa:
- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda…Fostes tão amigas na mocidade!
Que não a queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais! Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como uma ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte…
E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, mal lhe falaram em convidar a Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A raiva que tinha da outra iria com ela para a sepultura.
Com tal gente, bom dia! É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo que cura males e embranquece os cabelos…"
- Que mosca te mordeu, rapariga? Tu estás maluca ou quê?
Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.
Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez à Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana-verde que parecia um pé-de-vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.
E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos do casamento dele a correr em Favaios com uma de lá!
Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, senão pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas do Augusto bater as asas! O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela vilania no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.
Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. De nada valeu! Danadas!
Como a Sofia casou primeiro, disse-lhe a Rosa:
- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda…Fostes tão amigas na mocidade!
Que não a queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais! Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como uma ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte…
E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, mal lhe falaram em convidar a Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A raiva que tinha da outra iria com ela para a sepultura.
Com tal gente, bom dia! É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo que cura males e embranquece os cabelos…"
Continua...
Lamento, mas estou a transcrever directamente do livro e não tive tempo para passar tudo...
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Meu querido filho, que tu me amas eu já sabia...pois se eu te amo tanto!


