terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Silêncio, Sombra, Saudade...e Sol.








As Palavras
 


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

 
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.

 
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Este é o poema mais simples e mais belo de
 Eugénio de Andrade.  
É também, aquele de que mais gosto.
Esta deve ser a terceira vez que o publico.
Quando gosto a valer de qualquer coisa, chego a ser enjoativa.
Mas tenho a noção dos meus limites!  


 
 
Não creio que haja alguém que ainda não tenha visto e ouvido este maravilhoso duo cantar  esta belíssima canção, que adoro:
 Perdóname.
 Gosto tanto, que aqui  deixo o vídeo, mas desta feita, sem qualquer noção de limites.
Deixo um beijinho para todos(as) quiçá como uma espécie de desculpa e forma de compensação pela falta de originalidade do post!
 
 
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

É PRECISO AGUENTAR? É, SIM!

 
 
É em virtude de  Crónicas como esta, que cada vez admiro mais Miguel Esteves Cardoso.
Se aqui há uns anos atrás me dissessem que eu iria escrever isto, no mínimo, eu diria :
"Só se eu tiver enlouquecido"  Entretanto, não enlouqueci. E gosto, mesmo!
 

"Como é que se Esquece Alguém que se Ama?"

Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar.
 
 Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo.
 
Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.
Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
 
 

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A CULTURA DA APARÊNCIA..

No século vinte e um, se ainda estamos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, seremos gente do milénio passado.
Ainda não podemos adivinhar o tempo que será, sim que temos, ao menos, o direito de imaginar o que queremos que seja.

As Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que o direito de ver, ouvir e calar.
Que tal se começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se deliramos por um tempinho? Ao fim do milénio, vamos fixar os olhos mais além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:

O ar estará limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das humanas paixões. As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pelo televisor.

O televisor deixará de deixar de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver, em lugar de viver para trabalhar.

Se incorporará aos códigos penais o delito de estupidez, que cometem os que vivem para ter ou para ganhar, em vez de viver por viver e só.

Como canta o pássaro, sem saber que canta, e como brinca a criança,
sem saber que brinca.

Em nenhum país irão presos os rapazes que se neguem a cumprir o serviço militar, mas os que queiram cumpri-lo.
Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo; nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não mais acreditarão que as lagostas adoram que as fervam vivas.

                               
                        
                                                                  
 
Os historiadores não acreditarão mais que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza.
E a indústria militar não terá mais remédio que declarar-se falida.
A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio.
Porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratados como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.

A educação não será o privilégio dos que possam pagá-la, e a polícia não será a maldição de quem não pode comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem 
grudadinhas, costa contra costa.
Na Argentina, as loucas da praça de maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negarão a esquecer os tempos da amnésia obrigatória.
A perfeição, a perfeição continuará sendo o aborrecido privilégio dos deuses.

Mas neste mundo, neste mundo desajeitado e fodido, cada noite será vivida como se fosse a última, e cada dia como se fosse o primeiro!
 
Texto de Eduardo Galeano, in "O Direito ao Delírio"
Há verdades e vontades que serão sempre actuais, quer se goste ou não de as ouvir!
Esta é a minha opinião! A vossa será igual, ou não?..
 
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ESPELHOS DA ALMA.





Se um dia olhar para o céu e não te ver,
é que sou a onda do mar e não consigo te esquecer.
 Sou feliz do teu lado sem do seu lado estar.

 
 

Pois tu és isolado no meu modo de pensar
quando estou triste e não encontro solução
lembro-me que tu existes e moras no meu coração!
 

Carlos Drummond de Andrade

Quem pensar que este autor apenas escreve poemas românticos, pueris e idílicos, está redondamente enganado. Drumond, gostava  muito de poesia erótica e escrevia-a como ninguém.
Vejam este soneto! Sinceramente, foi a primeira vez que o li e ainda não o consegui definir bem. Defeito meu, certamente!




Beija-me, minha alma, doce espelho e guia.


Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,
beija-me, acaba, dá-me este contento,
e cada beijo teu engendre um cento,
sem que cesse jamais esta porfia.
 
Beija-me cem mil vezes cada dia,
pra que, chocando alento com alento,
saiam deste interior contentamento
doce suavidade e harmonia.
 
Ai, boca, venturoso o que te toca!
Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!
Acaba, vida, dá-me este contento,
 
Dá-me já tal gosto com tua boca.
Beija-me, vida: tudo em mim lateja.
Aperta, morde, mas com tento.
 
Não clarifica o autor, o que beija a boca, mas devo dizer que retirei este Soneto de um site de sonetos de Drummond, com o título “Jardim de Poesias Eróticas”.
Como curiosidade, vejo haver aqui duas palavras homónimas. Contento e com tento, ou seja, agrado e cuidado.
 
 Pronúncia igual, porém grafia e sentido diferente…J
  E esta, hein?
 
Veja como se pintam lindas margaridas.
 
 
A Arte é a maior e melhor forma de expressar e sublimar um sonho. Qualquer tipo de Arte!
 
Que pena eu não ser uma artista...
 
 
 

domingo, 27 de janeiro de 2013

"ÓS DESPOIS E INDIAIS"...

Das velhas glórias do Cinema Português, o filme "O Costa do Castelo" é aquele que mais me divertiu  e que vi vezes sem conta, uma vez que o tinha - e tenho - gravado em cassete, no antiquiquíssimo sistema Beta. Hoje,  tenho uma gaveta cheia dessas gravações, mas que continuam guardadas como peças de museu, já que o leitor dessas cassetes não tem qualquer utilidade.
A cena que mais nos divertia, era aquela em a personagem Rosa Maria, interpretada pela saudosa Hermínia Silva, fazia de discípula do não menos saudoso António Silva, no ensaio da aspirante a fadista. As calinadas ou pontapés na gramática, eram uma forma propositada de humor irresistível.
Querem acompanhar-me e relembrar esses momentos?


                            CLIQUEM AQUI P.F.
 Já que não consegui trazer
aqui o vídeo, vamos nós ter com ele!


                                                       
                      
                                                       
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A DANÇA DOS TAMANQUINHOS.

Recebi , via e-mail, este esplendido vídeo que uma amiga muito querida{a Miuíka}me enviou, e gostaria de partilhar convosco.
Andre Rieu, o famoso Maestro e violinista, é o único elemento masculino a participar nesta maravilhosa dança, tipicamente holandesa.
Espero que gostem.


 

Como não poderia deixar de ser, dado o meu gosto pela poesia, aqui fica um poema infantil, da autoria de Cecília Meireles.


"Poema Canção dos Tamanquinhos
 
Troc...troc...troc.. troc...
ligeirinhos, ligeirinhos,
Troc...troc...troc...troc...
Vão cantando os tamanquinhos...
Madrugada. Troc... troc
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, troc... troc...
Vão cantando os tamanquinhos...


Chove. Troc... troc... troc...
No silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
Vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
Os que têm sedas e arminhos,
Sonham, troc... troc... troc...
Com seu par de tamanquinhos.
 

 
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Amigos, desejo-vos um excelente fim-de-semana.
Beijinhos. 

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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Nem Contigo Nem Sem Ti.


 
 

A Guerra das Rosas




Partis-te sem dizer adeus nem nada
Fingiste que a culpa era toda minha
Disseste que eu tinha a vida estragada
E eu gritei-te da escada que fosses morrer sozinha
Voltaste e nem desculpa pediste
Perguntaste porque é que eu tinha chorado
Não respondi, mas quando vi que sorriste
Eu disse que estava triste porque tu tinhas voltado
Zangada esvaziaste o meu armário
E em nada ficou meu disco preferido
De raiva rasguei o teu diário, virei teu saco ao contrário,
dei-te cabo do vestido.
Queimaste o meu jantar favorito
Deixaste o meu champanhe azedar
E quando cozinhei o piriquito para abafar o teu grito, eu comecei a cantar
Fumavas e eu nem suportava o cheiro
Teimavas em me acender um cigarro
E quando tu me ofereceste um isqueiro
Atirei-te com o cinzeiro, escondi as chaves do carro
Não queria que visses televisão em dia de jogos de Portugal
Torcias contra a nossa seleção, se eu via um filme de acção tu mudavas de canal
Tu querias que eu fosse contigo ao bar
Só ias se eu não entrasse contigo
Saía pra não ter de te aturar, tu ficavas a dançar com o meu melhor amigo
Gozavas porque eu não queria beber.

Ralhavas ao ver-me de grão na asa
Eu ia à festa sem te dizer, nunca cheguei a saber, se tu ficavas em casa
 
  
Tu deste ao porteiro roupa minha
Soubeste que lhe dera o teu roupão
Eu dei o teu anel á vizinha pela estima que lhe tinha
Ofereceste-lhe o meu cão
Foste lendo o teu romance de amor
Sabendo que eu não gostava da historia
No dia de o mandares para o editor, fui ao teu computador
Apaguei-o da memoria.


Se cozinhavas eu jantava sempre fora
Juravas que eu havia de pagá-las
Aqui na rua dizias-me a toda a hora que quando eu me fui embora
Tu ficaste-me com as malas
Depois desses anos infernais
Os dois eramos caso arrumado
Achando que também era de mais
Juramos pra nunca mais, foi cada um pra seu lado.
No escuro tu insistes que eu não presto
Eu juro que falta a parte melhor
O beijo acaba com o teu protesto, amanhã conto-te o resto
 Boa noite, meu amor!
 

 


 

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domingo, 20 de janeiro de 2013

A Poetisa dos Excessos.




“Para as traições, para as mentiras, para o que é vil e falso, temos nós remédio: o orgulho; mas para a dor que nos faz mal, para essa, nenhum remédio há."

 








 
 
Este vídeo é um documentário sobre o nascimento e vida de Florbela Espanca.
Peço-vos que não deixem de o ver. Eu, apesar de já ter lido bastante acerca da sua obra, fiquei a saber muitas coisas que desconhecia sobre esta mulher sofredora e incompreendida, que foi considerada como a poetisa dos excessos. 
 

 Vaidade

 
 Sonho que sou a Poetisa eleita,
 Aquela que diz tudo e tudo sabe,
 Que tem a inspiração pura e perfeita,
 Que reúne num verso a imensidade!
 

 Sonho que um verso meu tem claridade
 Para encher todo o mundo! E que deleita
 Mesmo aqueles que morrem de saudade!
  Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

 

 Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
 Aquela de saber vasto e profundo,
 Aos pés de quem a Terra anda curvada!

 

 E quando mais no céu eu vou sonhando,
 E quando mais no alto ando voando,
 Acordo do meu sonho... E não sou nada!