segunda-feira, 12 de outubro de 2020

É P'RÁ MANHÃ....

 


[Esta foto, publiquei-a pela primeira vez, quando comuniquei aos meus leitores e amigos que, tal como essas uvas em embrião se estavam a desenvolver no cacho, um pequeno bago de gente se estava a desenvolver no ventre de sua mãe. 
Ambos, seriam bagos inteiros quando viesse o tempo certo.
E assim, foi! ]


Foi neste passar lento das horas

dos dias e da semana após semana

que a pequena semente se fez gente

e depois de ser bago de gente

foi crescendo, crescendo,

entre a cuidadosa ternura e amor

dos que tem perto e o

deslumbramento irreprimível

a alegria esfuziante,

de quem o ama e vê de longe.

Amanhã se completarão

os trezentos e sessenta e cinco dias

dos muitos que se seguirão

mais adiante...


💓


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sábado, 10 de outubro de 2020

DA LIBERDADE.

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Além Tejo.


O Aquém-Tejo é bonito, 

tem belezas de encantar

mas o meu lugar favorito

fica bem pra lá do mar.


É tão lindo o Além-Tejo

com suas planícies douradas

tem ceifeiras que não vejo,

 por lá ceifaram dobradas.


Com o decorrer dos tempos

e com toda a evolução

já nada é como era,

 tudo sofreu transformação.


Houve mudanças bem vindas

que deram vida aos montados

houve ódios, houve partidas

muitos foram os inconformados


O homem foi substituído

no seu trabalho braçal

pelas máquinas ruidosas

e muitos passaram mal.


Aqueles que lá não viveram

sequer sentiram na pele

o sofrimento e a pobreza

falaram de barriga cheia

serviram-se da ignorância alheia 

e se autoproclamaram

 arautos em sua defesa.


Eu nasci no Alentejo

e dele sinto saudade.

Quem me dera ver o Tejo

e passar para além dele

ouvindo gritar: Liberdade!!







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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Um Soneto Por Semana. # 4


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Desta vez são dois sonetos.

Mas o meu não conta. É uma pálida réplica humorística.

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A Frouxidão No Amor É Uma Ofensa.


 A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão, fervor e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.


Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;

Em sombras a razão se me condensa.


Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.


Talvez me enfadaria aspecto iroso,

Mas de teu peito a lânguida ternura

Tem-me cativo e não me faz ditoso.


Soneto de Manuel Maria Barbosa du Bocage


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Não sei como é possível acontecer

Quem sinta na bondade frouxidão

Eu choro e desespero quando tal oiço dizer

Isso é maltratar alguém sem compaixão.


Sei que em tudo és diferente de mim

Se não ardo e se não gemo de paixão

Foi teu egoísmo que me tornou assim

Fogo que arde sem amor é chama sem coração.


Fica lá com tua fúria de raivoso garanhão

A ternura do meu peito é feita só de brandura

Como és homem de bravatas, praguejas sem ter razão.


Se minha gratidão te enfada, sai perto de mim, vai p'ra longe

Não quero teu fogo de palha bafiento e malcheiroso

Haverá quem me dê valor; e tu, vai pró Convento ser monge!!


😄


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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Outono do Meu Contentamento.

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Foto minha de um outro Outono 


Resolução de Outono.


Podia ter passado o resto da sua vida

a viver do mesmo modo rotineiro, 

insosso e sem brilho, como andava a viver desde aquele dia

que a marcou. Na memória, e nos hábitos do seu quotidiano

que, lenta e insidiosamente,

a foram afastando cada vez mais de si,

sem que isso fosse sinónimo 

de aproximação real de alguém.


Um acontecimento, tão natural, como 

naturais são os acontecimentos banais,

não premeditados nem intencionais,

mudou-lhe o modo e a forma de estar e encarar

a sua própria vida. E até a sua pessoa...

Ela, que nunca havia tomado uma resolução de fim-de-ano

e dizia a rir que a sua resolução seria não tomar resolução alguma,

tomou a sua resolução de Outono.


Tenho a certeza que vai passar a ver-se,

e a ver todos quantos a rodeiam, 

com um olhar menos tristonho.


Finalmente, voltou a encontrar-se.

O vislumbre de uma luz, ainda que ténue, mas brilhante

e promissora, sorri-lhe, 

ao fundo daquele longo e lúgubre túnel...




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terça-feira, 6 de outubro de 2020

Que Volte A Confiança E Todos Os Risos Se Iluminem.

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Esta ausência não foi por nós pedida,

este silêncio não é da nossa lavra,

já nem Pessoa conversa com Pessoa,

com o feitiço sempre imenso da palavra


Este tempo só é o nosso tempo

porque é nossa a dor que nos sufoca

e faz de cada dia a ferida entreaberta

do assombro que esquivando-se nos toca


Esta ausência é dos netos, dos filhos, dos avós,

é a casa alquebrada pelo medo,

é a febre a arder na nossa voz

por saber que o mal a magoa em segredo


Este silêncio é um sussurro tão antigo

que mata como a peste já matava;

vem de longe sem nada ter de amigo

com a mesma angústia que nos castigava


Esta ausência é uma pátria revoltada

que se fecha em casa sempre à espera

que a febre não a vença nem lhe roube

a luz mansa que lhe traz a Primavera


Esta casa somos nós de sentinela,

à espera que a rua de novo nos console

e que festeje debruçada à janela

a alegria que só nasce com o sol


Esta ausência mais tarde há-de ter fim,

por nada lhe faltar nem inocência;

que se escute o desejo de saúde

anunciando que vai pôr fim à inclemência


Que se abram as portas e as janelas,

que o medo, derrotado, parta sem destino

por ser esse o sonho colorido

que ilumina o riso de um menino.


José Jorge Letria 

(20 de Março de 2020)

domingo, 4 de outubro de 2020

LENGALENGA.

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Trago cansada

a memória...

Se guardo, 

não sei onde ponho.

Se ponho, guardo. 

 E depois

ando à procura 

das coisas,

 que nesta 

minha loucura,

guardo, ponho 

e não disponho.


Um lugar para

cada coisa

cada coisa em seu lugar

 - me dizia minha mãe -

E foi coisa que

 sempre fiz,

quando esta minha cabeça

lembrava onde as coisas

punha e sabia onde

as  guardava, sem

diz-que-diz, 

nem desdiz.


Os óculos são

prá cabeça

as meias para

os pés são,

as luvas, quando 

está frio, calço uma

em cada mão.

Isso quando minha 

memória, era esperta 

e atilada, 

agora anda

cansada, 

já não memorizo

 nada.


Se um dia eu

não aparecer

dois ou três dias seguidos

já sabem, perdi o rumo

esqueci onde pus o mapa

onde guardava o roteiro

deste Cantinho

Faz-Tudo...*


Fonte  desta bela Imagem, 

que não tem nada a ver com a palavra final do texto, 

embora faça parte da mesma Arte Circense. 

* Faz-Tudo = Sinónimo de Palhaço-Pobre, usado no Alentejo.

  [ Com todo o respeito e admiração que me merecem os artistas circenses. Especialmente, os palhaços, no desempenho da difícil Arte de fazer rir crianças e adultos. ]


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sábado, 3 de outubro de 2020

DIZEM SER A CONTA QUE DEUS FEZ.

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NESTA resposta/comentário que fiz  ao último comentador do postal que podem ver clicando na palavra escrita em maiúsculas, meu amigo de há largos anos, que muito prezo e estimo, referi que quando publicasse o poema do Poeta/Escritor, Paulo Mendes Campos, pouco conhecido entre nós, este lhe seria dedicado. Hoje, cumpro a palavra dada. 

Este postal, é pois dedicado ao Rogério C.V. Pereira.

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Três Coisas


Três Coisas 

Não consigo entender

O tempo

A morte

Teu olhar


O tempo é muito comprido

A morte não tem sentido

Teu olhar me põe perdido


Não consigo medir

O tempo

A morte

Teu olhar


O tempo, quando é que cessa?

A morte, quando começa?

Teu olhar, quando se expressa?


Muito medo tenho

Do tempo

Da morte

De teu olhar


O tempo levanta o muro.


A morte será o escuro?


Em teu olhar me procuro

*


Fonte
da fotografia do Poeta

Paulo Mendes Campos
28- 02 -1922
01 - 07 - 1991 

Escritor, jornalista e poeta brasileiro, conhecido, sobretudo, pelas suas Crónicas. É, pois, com uma das suas Crónicas que termino.


"O Amor Acaba"

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insónia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto, o amor acaba."

[Assim, de um só fôlego, bem ao jeito do 'nosso' Nobel. ]








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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A Demagogia Na Placidez da Noite.

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"QUE ONDA DE VIOLÊNCIA É ESTA?"



Que onda de violência é esta

Que se passeia com ironia

Na minha gente, no meu povo

Que outrora tinha alegria.


Que onda de violência é esta

Que na placidez da noite

À luz da demagogia

Muda e indiferente,

Age com acordes 

De malvadez e cobardia.


E onde está a mão da Justiça

Que cozinhada em lume brando,

Dorme na sombra e com preguiça

Promove a violência,

Mas por engano!

E como errar é humano

Continuamos assim errados,

Quem sabe amanhã talvez

Os honestos sejam culpados!!!



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Porque os anos passam,  e o mundo continua cada vez mais confuso e conturbado, achei pertinente dar-vos a  conhecer este poema da autoria da Poetisa e autora do blog Ave Sem Asas, Ana Martins, transcrito do seu primeiro livro com o mesmo título do blog.  Leiam, por favor, e vejam como o clamor por Justiça se mantem, uma década depois, mas...será que todos os julgados aceitam a sentença?  Esse é, e será, o eterno cerne da questão!


[ Os figos da figueira-da-Índia ou piteira, são dulcíssimos.

O pior são os picos que se têm de enfrentar, antes de os conseguir colher e saborear.

Assim, é a vida. ]

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