Era uma vez um velho Sábio que tinha lido todos os livros e sabia tudo. Nada do que existia, e mesmo do que não existia, tinha para si segredos.
Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo.
Conversava com os animais e com as plantas e conhecia o passado, o presente e o futuro. Até sabia que um dia, hoje, a esta hora… eu estaria aqui a contar-vos esta história.
Como sabia todas as coisas e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério.
Às vezes apetecia ao Sábio não saber qualquer coisa, poder perguntar a alguém qualquer coisa que não soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou “Que dia é hoje?”; ou “Tem passado bem?” a alguém. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.
Até que, um dia, bateu à porta da Biblioteca um Estrangeiro. O Sábio abriu-lhe a porta e o Estrangeiro disse:
– Venho buscar-te.
– Eu sei. És a Morte.
– Não sou nada a Morte, sou um Estrangeiro.
– Eu sei tudo, e sei que és a Morte.
– Enganas-te. Venho da parte do Imperador que quer falar contigo porque está a morrer e ouviu dizer que só tu sabes como são os lugares para onde se vai quando se morre.
– Não me iludes, Morte. Vieste buscar-me para me me levar ao Reino das Sombras e não ao Palácio do Imperador.
– Se não acreditas em mim, vou-me embora.
A Morte ficou zangadíssima por ter sido reconhecida, pois tinha tido um trabalhão a disfarçar-se de Estrangeiro. Mas, como a Morte é muito teimosa, passados alguns dias, disfarçou-se de novo, coloca uma máscara de Palhaço e bate à porta da Biblioteca.
– Venho buscar-te.
– Eu sei. És outra vez a Morte.
– Estás enganado, venho buscar-te para te levar a uma festa. A cidade tem muito orgulho em ter um homem tão sábio e tão ilustre entre os seus habitantes e o Governador decidiu organizar uma grande festa em tua honra.
– Não, Morte, não me enganas eu sei que vieste buscar-me para me levar ao Reino das Sombras e não à Festa do Governador.
– A Morte estava cada vez mais zangada, porque estava escrito algures (no sítio onde essas coisas estão escritas) que o Sábio deveria morrer sem reconhecer a Morte e sem saber que morria.
Por isso, alguns meses depois, voltou a aparecer-lhe, desta vez disfarçada de uma linda Rapariga.
A Morte põe a máscara de Rapariga e bate à porta da Biblioteca.
– Venho pedir-te em casamento. Vem comigo, os convidados já chegaram, a boda já está servida…
– Aceito o teu noivado, Morte, e irei contigo.
– Enganas-te. Eu não sou a Morte, sou aquela que há muitos anos amaste, lembras-te?
– Sim. Como poderia esquecer-me de ti? Há quanto tempo te esperava.
Continua...














