domingo, 5 de fevereiro de 2023

O SANTO E O DUENDE II

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Foto minha


II

    Enquanto reflectia no caso foi surpreendido por qualquer coisa que lhe caiu entre os pés, produzindo um duro tinido de metal. Tratava-se de um táler* novinho em folha; um dos corvos da Catedral que coleccionava objectos diversos, voava com a moeda para uma cornija de pedra que ficava mesmo por cima do nicho do Santo quando o bater da porta da sacristia o sobressaltou fazendo-o soltar a presa. Desde a invenção da pólvora de caça, os nervos do corvo já não eram o que tinham sido noutros tempos.

    __ Que é isso que caiu aí?  - perguntou o Duende. 

    __ Um táler de prata - disse o Santo - Realmente é uma grande sorte; agora já posso fazer qualquer coisa pelos ratos de igreja.

    __ Como o conseguirá? - perguntou o Duende.

    O Santo reflectiu.

    __ Aparecerei numa visão à empregada que varre a igreja. Dir-lhe-ei que há-de encontrar um táler de prata entre os meus pés e que deve ir com ele comprar farinha e deixá-la no meu nicho. Quando ela encontrar a moeda, compreenderá que o sonho era verdadeiro e apressar-se-á a cumprir as minhas instruções. Assim os ratos terão comida para todo o Inverno.

    __ Claro que o você pode fazer isso - observou o Duende - quanto a mim, só consigo aparecer em sonhos às pessoas depois de elas cearem tarde uma grande pratada de coisas indigestas. As minhas oportunidades com a mulher da limpeza são portanto muito limitadas. Afinal de contas ser santo também tem as suas vantagens.

    Enquanto isto se passava, a moeda continuava aos pés do Santo. Estava muito areada e rutilante e exibia numa das faces uma bela estampagem das armas do Eleitor. O Santo começou a reflectir que uma tal oportunidade era demasiado rara para se desperdiçar precipitadamente.  Talvez a caridade  indiscriminada se tornasse nociva para os ratos de igreja. Afinal de contas, era da natureza deles serem pobres, dissera-o o Duende, e  o Duende em geral tinha razão.

    __Tenho estado a pensar - disse por fim para o vizinho - que seria muito melhor se eu mandasse comprar, em vez da farinha, um táler de velas para serem colocadas no meu nicho.

Continua.

   * O táler foi uma moeda de prata usada na Europa por quase quatrocentos anos.




[Exemplos de táleres alemães e austríacos comparados com um quarto de dólar. O seu nome sobreviveu em várias moedas contemporâneas, tais como o dólar ou o tólar esloveno (substituído pelo euro)]


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O SANTO E O DUENDE.

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Foto minha

O pequeno Santo de pedra ocupava um nicho escuso numa ala lateral da velha Catedral. Ninguém se lembrava muito bem de quem ele fora, mas tal facto constituia de certo modo uma garantia de respeitabilidade. Pelo menos era isso que o Duende dizia.
O Duende era um belíssimo espécime antigo de pedra cinzelada, e encontrava-se instalado sobre a mísula que ressaía da parede fronteira ao nicho do pequeno Santo. Estava relacionado com alguns dos mais distintos habitantes da Catedral, tais como as esculturinhas bizarras dos bancos do coro e da divisória de madeira que separava o Altar-Mor do resto do templo e até com as gárgulas alcandoradas nas altitudes do telhado. Todos os animais e homúnculos fantásticos que se acachapavam ou empiralavam em madeira ou pedra ou chumbo, lá em cima nas abóbadas, ou ao fundo da cripta, era de certo modo seus parentes; tratava-se, por consequência, de uma pessoa de reconhecida importância no mundo da Catedral.
    O pequeno Santo de pedra e o Duende davam-se muito bem, embora encarassem a maior parte das coisas de pontos de vista diferentes. O Santo, um filantropo do modelo antigo, pensava que o mundo, tal como ele o via, era bom, mas podia ser melhorado. Compadecia-se em particular dos ratos de igreja que eram miseravelmente pobres. O Duende, por outro lado, entendia que o mundo, tal como o conhecia, era mau, mas achava preferível não procurar reformá-lo. Estava na natureza dos ratos de igreja serem pobres.
    __Mesmo assim - dizia o Santo - sinto muita pena deles.
    __Claro que sente - dizia o Duende - ; é da sua natureza sentir pena deles. Se deixassem de ser pobres, o senhor não poderia preencher as suas funções de santo. O seu lugar tornar-se-ia numa sinecura.
     Teve esperança de que o Santo lhe perguntasse o que era uma sinecura, mas o outro refugiou-se num silêncio de pedra. Talvez o Duende tivesse razão, pensava, mas fosse como fosse gostaria de fazer qualquer coisa pelos ratos de igreja antes de chegar o Inverno. Eram tão pobrezinhos!

Continua.

Imagem da Net.

Hector Hugh Munro mais conhecido pelo seu pseudónimo Saki, foi um escritor britânico, cujos contos satíricos e macabros expunham a natureza da sociedade inglesa na primeira década do século XX.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

FADOS.

 



Fonte da imagem.


Leva-me Aos Fados.


Numa noite de saudades

Pedi-te: "Leva-me aos Fados"

Olhaste-me de alto a baixo

Com o teu ar sobranceiro

Sem atender o meu pedido

Saíste em passo ligeiro.


A partir daquela noite

Morreu em mim a vontade

De pedir-te companhia.

Pouco depois saudosa

Aceitei logo o convite

Do Chico zaragateiro.


Combinámos o encontro

P'ra  noite de nostalgia

E quando a saudade pediu

Lá fomos de braço dado,

À antiga Tasquinha do Fado.

P´rós lados da Mouraria


Ele no seu andar gingão 

Eu de sapato de salto

e de anca meneando...

Olhámos ambos para o céu

E vimos que a Lua  

Olhava para nós 

feliz nos sorria!








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domingo, 29 de janeiro de 2023

PALAVRAS DE ALGUÉM. # 5 __ VERGONHA INFINITA!

 

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Decidi retomar esta rúbrica em que dou a conhecer as palavras que me calaram fundo, de pessoas que admiro. Sejam bloggers escritores, poetas, cronistas ou quaisquer outras formas de expressão literária.
Para que se possam situar irei levar-vos aos primórdios desta curta aventura, mas que agora me proponho  dar continuidade. 
Foi AQUI, com o blogger mais enigmático e misterioso de toda a blogosfera, que iniciei esta série de homenagens.
Como disse então, esta iniciativa tomei-a sem prévia autorização dos escribas, pelo que os textos seriam de imediato retirados, caso manifestassem o seu desagrado. Decisão que mantenho apesar de já serem passados uns anitos largos.
Seguidamente como podem verificar, temos a querida Miss Smile ( que entretanto encostou as portas, mas não encerrou o blog)  AQUI - seguindo-se  AQUI  o Atravessado, Cigano Maltês, Mau-Tempo, um jovem sonhador que amo de paixão - como dizem os nossos irmãos de além-mar - e, por fim, porém não menos importante,  AQUI   a Mãe Preocupada.
Feitas as apresentações anteriores, vou então  trazer-vos hoje um grande Poeta da vizinha Espanha, que me honrou com a sua amizade.  Deste livro de poemas, gentil oferta do Poeta Juan Francisco, que se pode ver a encimar este post, escolhi  este poema, tão actual como se tivesse sido escrito nos dias de hoje. Porque as guerras mudam de nomes, mas os ódios são os mesmos...
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Como a publicação já vai longa, não farei a tradução, também porque sei ser-vos fácil a leitura deste magnífico e comovente poema.
Grata a todos os leitores que tenham tempo e a predisposição para o ler. Vale muito a pena!!


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Amar Sem o Fogo da Urgência

 ❤




Na tua urgência de viver,
De forma desenfreada,
Esqueceste que eu existia.
Amei-te e sofri calada. 


Mas hoje no Outono da minha vida
E no tempo do teu já quase Inverno
Vens suplicar o meu amor
Não sei se ceda ao teu pedido terno.


Penso - É feito de fogo urgente 
O amor vivido na juventude
Talvez agora os beijos da tua boca


Saboreados com vagar, lentamente
Me saibam melhor sejam mais doces
Venham reacender a antiga fogueira louca


 ❤ ❤ ❤  ❤  ❤  ❤

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

VERSOS SEM REVERSO.

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És o esboço de um quadro inacabado
És a sombra de um sonho
há muito por mim
 sonhado.





És um Canto dos Lusíadas que nunca foi escrito
És um verso, um poema, um abismo profundo.


És tudo e és nada

Somente em mim e por mim
Eu arrisco tatuar 
um risco.


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domingo, 22 de janeiro de 2023

CHOVE EM BARCELONA.

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Roberto Bolaño
(Santiago do Chile, 28 de Abril de 1953 — Barcelona, 15 de Julho de 2003) 


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Roberto Bolaño fixou-se em Espanha no final da década de 70, depois de percorrer o México, África e vários países europeus. 
O motivo das viagens foram os oito dias preso por militar na resistência ao governo de Pinochet. 
Mas foi Barcelona que acolheu Bolaño até o ano da sua morte, em 2003. O início foi difícil: solidão, ilegalidade, falta de dinheiro. Trabalhou como lavador de pratos, camareiro, vigilante nocturno, estivador. Até que a literatura lhe proporcionou algum rendimento.
Foi em território espanhol que Bolaño se desenvolveu como escritor, produzindo desenfreadamente contos e romances. Sem abandonar a poesia. Aliás, Bolaño considerava-se, acima de tudo, um poeta.

[Créditos: Gustavo Petter]

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Ahora paseas solitario por los muelles
de Barcelona.
Fumas un cigarillo negro por
un momento crees que sería bueno
que lloviese.
Dinero no te conceden los dioses
pero sí caprichos extraños.

Mira hacia arriba:
está lloviendo.

Barcelona, vista aérea.
Ao centro a Catedral da Sagrada Família.
Foto que me foi enviada por uma pessoa de família, mas não de sua autoria

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Agora passeias pelas docas
de Barcelona.
Fumas um cigarro negro e por
um momento crês que seria bom
que chovesse.
Dinheiro não te concedem os deuses
mas sim caprichos estranhos.

Olha para cima:
está chovendo.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

SORRISOS SÃOS EM MENTES LOUCAS.

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Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura.

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio.

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola.

Que afinal o que importa não é haver gente com fome porque assim como assim ainda há muita gente que come.

Que afinal o que importa é não ter medo 
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo.

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

[Poema "Pastelaria" de  Mário Cesariny]




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